Robert Torres
Robert Torres

Álbum de Sérgio Assad com a filha traz composições coletivas virtuosas

Juntos, eles concorrem ao Grammy 2022 com ‘Archetypes’, que também tem a participação do Third Coast Percussion

João Marcos Coelho, Especial para o Estadão

22 de dezembro de 2021 | 20h00

Sérgio Assad, 68 anos, nascido em Mococa, interior de São Paulo, formou com seu irmão Odair, 65, um dos duos mais influentes, talvez o mais influente no mundo, ao lado do também brasileiro Duo Abreu, igualmente determinante nas últimas décadas. O Duo Assad formou-se em casa mesmo, em 1973. Ampliou o repertório para esta formação, estabeleceu novos e elevadíssimos patamares na qualidade da interpretação e produção de seus álbuns. Nos últimos dez anos, eles tomaram rumos diferentes. Odair vive em Bruxelas, na Bélgica, e Sérgio, em São Francisco, nos EUA, onde também está radicada sua filha Clarice, 43 anos. 

Eles concorrem no Grammy 2022, a ser anunciado em fevereiro, em três categorias com o álbum Archetypes. É uma suíte coletiva, composta por Sérgio Assad, sua filha Clarice e o Third Coast Percussion (TCP), quarteto de músicos norte-americanos. Lançado em maio deste ano pela Cedille Records, é uma daquelas composições coletivas virtuosas, em que tudo tem liga e, ao mesmo tempo, é diferenciado, com temas de cores e sabores próprios. 

O álbum, disponível nas plataformas de streaming, concorre nas seguintes categorias: melhor composição clássica contemporânea (disputando com o renomado compositor holandês Louis Andriessen e a norte-americana Caroline Shaw); melhor performance de música de câmara (lado a lado com as sonatas de Beethoven para violoncelo e piano com Yo-Yo Ma, com quem Sérgio já ganhou um Grammy em 2007 por Obrigado Brazil); e melhor gravação do ponto de vista técnico (concorrendo com a Sinfonia dos Mil, de Mahler, com Gustavo Dudamel e a Filarmônica de Los Angeles). 

Em entrevista ao Estadão, Sérgio conta como o conceito de arquétipo surgiu: “Recebi um convite para organizar, em abril de 2020, um concerto em Nova York, cuja temática era Mitos e Lendas. Pedi à Clarice para ser coautora”. O concerto não aconteceu por causa da pandemia, mas o álbum, sim. Clarice hoje não é só cantora e pianista, mas compositora consolidada, que terá sua Sinfonia n.º 1 gravada em maio de 2022 pela Filarmônica de Londres e fará a curadoria de música de câmara contemporânea em janeiro, no 1.º Festival de Verão de Campos do Jordão. “Ela me surpreendeu com a sugestão de criarmos músicas em torno dos arquétipos.” Clarice indicou o grupo Third Coast Percussion. Sérgio assina quatro temas, Clarice, outros quatro, e os integrantes do TCP, um cada. 

“Claro que existem muito mais arquétipos do que os 12 escolhidos”, diz Clarice ao Estadão. “Mas tivemos razões para chegar até o número 12 também pela simbologia do número em si: os 12 meses do ano, os 12 signos do zodíaco, os 12 trabalhos de Hércules.” 

Conceito

Unidade na diversidade, este talvez seja o conceito mais claro para definir o álbum, diz Sérgio. “Como temos formas distintas de escrever, as oito primeiras músicas ficaram bem contrastantes entre si. Se tivéssemos composto também as quatro restantes, talvez o resultado não fosse tão rico em termos de diversidade. As quatro peças dos percussionistas, que são completamente diferentes entre si, refletem esta diferença. A unidade deve-se ao fato de todos terem tentado, cada um a seu modo, retratar a própria ideia que já tínhamos sobre os arquétipos.” 

A indicação em categorias tão diferentes atesta a originalidade e a consistência deste álbum calcado em arquétipos universais, presentes em toda cultura do planeta, como as figuras do rebelde, do inocente, do órfão, do amante, do sábio, do herói, do criador e do explorador.

Em O Inocente, de Sérgio, a percussão sutil, minimalista no melhor sentido da palavra, dialoga com a voz de Clarice. Aliás, a voz neste álbum é exclusivamente usada como timbre. Afinal, ela é o arquétipo primal dos sons, a voz humana, descartando-se uma de suas funcionalidades, que é a de veicular significados, ou melhor, palavras. Outro exemplo expressivo é O Herói, de Clarice. Aqui ela toca piano, ao lado do violão de Sérgio e a percussão, sempre parcimoniosa, precisa.

David Skidmore, do Third Coast Percussion, assina O Amante, retrato da paixão, que combina marimba e piano num crescendo com percussão, piano e violão trocando motivos melódicos entre si, até o clímax representado pelo címbalo, descaindo vagarosa e voluptuosamente para a calmaria final. Skidmore qualifica, em entrevista ao Estadão, como “muito natural” a colaboração com Sérgio e Clarice. “Viemos para o projeto com formação em música clássica, mas também interesses e experiências em outros estilos musicais. Porque todos nós abordamos o projeto com mentes e corações abertos, ele se transformou em algo que todos temos muito orgulho.” 

Tudo o que sabemos sobre:
músicaGrammy

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.