REUTERS/Diego Vara
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Álbum de Paul McCartney vaza e sigilo de lançamento é quebrado

'McCartney III' circula pela internet em áudios que mostram como vem o disco que Paul fez durante a quarentena, tocando todos os instrumentos pela terceira vez

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2020 | 20h02

O serviço secreto das operações de Paul McCartney falhou e, às vésperas do lançamento de seu próximo álbum chamado McCartney III, o áudio das 11 músicas novas gravadas em dias de quarentena já circulam pelos becos da web. Nunca se sabe se falhou ou se foi falhado. Há muitos anos que o negócio das pessoas que o circulam não é exatamente vender canções, mas fanatismo. Todos ali sabem que o reino de McCartney não deixará de arrecadar um centavo com o vazamento assim que o disco sair. Muito provavelmente, arrecadará até mais com a degustação. Quem ouviu e quem não ouviu irá comprá-lo por sua capa, suas fotos, a gravação definitiva remixada como deve ser feita (e não como está nos áudios piratas) e por um detalhe extra: desta vez, seu álbum será levado ao público em três ou quatro embalagens diferentes.

McCartney III vai ser lançado no dia 18 de dezembro. Seria 11, mas os produtores pediram mais um tempo talvez para conseguirem fazer valer uma ideia que já está sendo criticada por sua boa dose de desvario capitalista: em vez de vender um disco só, com todas as canções, o álbum será vendido em três ou quatro versões, cada um deles diferenciado por cores diferentes e com uma música inédita. Ou seja: quem quiser conhecer todas as músicas novas terá de comprar os três ou os quatro álbuns do roqueiro. É como se os Beatles lançassem Sgt Pepper’s em quatro versões de LP: só um deles com She’s Leaving Home, outro com Lucy in the Sky with Diamonds, um outro com A Day in the Life e um quarto com With a Little Help From My Friends. E o fã que quisesse ouvir tudo, que comprasse os quatro.

A boa notícia é que Paul continua valendo cada centavo e McCartney III, em que ele toca todos os instrumentosfaz um belo trabalho a quem se dispuser ir além das canções. Todos os Paul estão lá, lapidados pelo próprio durante a quarentena que passou com a família em sua fazenda. O do violão, o do piano, o das canções de ninar e dos rocks de despertar. Eles são complementares e sobreviveriam também se não fossem. Muitos artistas fazem suas carreiras sendo apenas uma dessas quatro partes.

Mas, ao álbum: Seize The Day é um rock desses vigorosos mas dóceis, a porção de equilíbrio à aspereza de Lennon que Paul sacou logo, sofisticou e levou para a vida. Seu peso não precisou de revolta, algo que ele nunca teve, e seu rock and roll, por mais alto que sua voz chegou em Helter Skelter, não precisou raiva. Seize the Day, que nada tem a ver com Helter Skelter, segue um pensamento de composição que Paul passou a usar quando se viu com mais recursos de estúdio, a partir do final dos anos de 1990. Melódico e de segunda parte – desculpe, não tem outra palavra – deliciosa.

Pretty Boys é o Paul das cordas de aço. O que se senta com um violão e resolve uma ideia em poucos acordes, cantarolando a primeira melodia que vem sem lapidá-la tanto desde que, em algum momento, ela leve a um crescente hipnótico tão poderoso que faria seu fã acreditar que a terra é plana. Lavatory Lil tem um peso maior, mais anos 70, e traz um solo de guitarra de dedos duros para uma canção que fala de uma Lil, a personificação de uma garota que Paul não gosta e que, conforme disse em uma entrevista, jamais vai revelar quem é. Aliás, Paul toca tudo no disco e aqui pode estar seu calcanhar de Aquiles. Nenhuma execução instrumental é excepcional. Mas era só o que faltava, Paul ser um músico virtuoso.

De todos os Paul instrumentistas, e o mundo pareceu ruir quando ele fez aquele álbum em 1980 dizendo que havia tocado todos os instrumentos (pela complexidade, o de 1970 parece ter sido mais fácil), o Paul baixista não investe mais nas linhas que ele tanto criou para os Beatles. Seu baixo ficou mais reto, mais linear, menos barroco. Mas isso não é de hoje. Mas segue uma hamonia de toques surpresa em todas elas, Deep Down, Slidin, Winter Bird... Winter Comes, Find My Way, Deep Deep Feeling e Long Tailed Bird

É bom ouvir bem a pequena The Kiss Of Venus. É de sua pequenez que saiu tudo o que Paul fez pela vida, seguindo a estrutura das canções de ninar. Sua ideia inicial é sempre assim, como se ele fizesse sempre uma música para o filho dormir. Depois que o fio da melodia chega, ele o puxa e a desenvolve até levá-la ou não à condição de grande canção. Umas viram rock, outras seguem sendo canções de ninar. E tem ainda Woman and Wives, que lembra o grave da voz e o drama da alma de Johnny Cash. Triste, bela e solitária, mais ou menos assim. “Muitas escolhas a fazer / Muitas correntes para desenredar / Cada caminho que tomamos / Torna  a viagem mais difícil / O riso se transformou em tristeza / Não me deixe triste / Perseguindo o amanhã.”

A terceira solidão de Paul McCartney o pegou bem resolvido com a própria história. Em seu primeiro isolamento, em 1970, quando fez McCartney, ele via apático os Beatles ruírem mesmo depois de todos os seus esforços. Na segunda, em 1980, ano de McCartney II, via ruírem os Wings. Agora, em 2020, ao lado de Nancy Shevell desde 2011 e paizão de Stella, Beatrice, James, Heather e Mary McCartney, não tem nada que queira além de ser ele mesmo. "Qual o melhor dia de sua vida, aquele que você voltaria para viver de novo?”, quis saber eu em uma entrevista de 2019 para o Estadão, esperando por uma resposta de força histórica, mas o que ele me respondeu foi isso: “O dia mais feliz da minha vida? Hoje. Eu sou um homem feliz.”

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