Álbum coroa projeto social do AfroReggae

Finalmente, ficou pronto. Nova Cara, o CD do grupo AfroReggae, foi lançado na terça-feira, com direito a coquetel na gravadora, show dos 17 meninos de Vigário Geral e presença da atriz Regina Casé, madrinha da turma. Ela deu o tom da comemoração: "Só pelo trabalho social que eles desenvolvem, já valia a pena comprar o disco. Mas, artisticamente, é bom pra caramba."O disco já surpreende na imagem da capa, em que um menino negro, em idade pré-escolar, aparece desfocada, mas nitidamente olhando um fuzil que está em primeiro plano. Incomoda, mas não difere da capa dos jornais cariocas de hoje, noticiando a invasão de um morro.Dentro, oito faixas reproduzem o cotidiano dos meninos (e meninas) com idade entre 17 e 22 anos. Em meio a sons de tiroteio, uma percussão poderosa, às vezes acústica e outras eletrônica, guitarras e até canto de capoeira, eles reclamam do preconceito racial, da falta de perspectiva e, principalmente, da polícia.No palco, o AfroReggae é adrenalina pura, eles cantam e dançam sem parar, com preparo profissional. Ando, um dos integrantes, conta que as músicas e a performance são criação coletiva e amenizam a agressividade do cotidiano. "Tem gente que era nervoso, brigava muito e agora, no AfroReggae, melhorou até o relacionamento com as outras pessoas", conta Ando. "Não fazemos só música. Temos um trabalho social, tão importante quanto o artístico."Por trás de tudo está José Júnior, criador do grupo. Até 1992, ele fazia bailes funk na periferia do Rio. Com a proibição desse tipo de evento no fim daquele ano, Júnior criou um jornal sobre cultura negra. Fez sucesso e viu que dali poderia surgir trabalho mais abrangente. Em agosto de 1993, com a chacina de Vigário Geral, Júnior decidiu fazer um trabalho de reintegração com pré-adolescentes da favela, uma das maiores da zona norte do Rio. Começou com capoeira e oficina de percussão e juntar as duas atividades foi instantâneo. Dois anos depois, Caetano Veloso conheceu o grupo e o adotou. O resto é história, e ainda vai ter muitos capítulos.

Agencia Estado,

14 de fevereiro de 2001 | 16h42

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