Terry O'Neill
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'Álbum Branco', 50 anos: uma obra imperfeita e, por isso, uma perfeição, moderna e atual

Disco icônico dos Beatles tem canções que fariam qualquer banda vender a alma ao diabo para tê-las em seu songbook

Alberto Bombig, O Estado de S. Paulo

21 Novembro 2018 | 20h47

O Álbum Branco, que está completando 50 anos,  é um disco irregular, desorganizado, cheio de altos e baixos, fruto de crises existenciais, viagens lisérgicas, egolatria, picaretagens esotéricas, pirotecnias poéticas e experimentações sonoras. Ele não está na foto do meu pódio da coleção dos Beatles, no qual Sgt. Pepper’s ostenta orgulhoso a medalha de ouro, Revolver, com cara emburrada de indignação, a de prata, e Rubber Soul, sorriso juvenil nos lábios, a de bronze. Tenho sérias dúvidas até sobre a prevalência dele sobre Abbey Road.

É, para mim, o trabalho mais rock-and-roll dos Beatles, ao menos no espírito revolucionário. Em algumas faixas, o Álbum Branco chega a soar como uma obra inacabada, o rabisco de um grande pintor numa tela nunca concluída, a anotação de um poeta na caderneta de viagem. Esse gosto de “quero mais” confere ao disco um espírito jovem e contemporâneo, o registro fidedigno de um ano em que o mundo estava em ebulição e não havia muito tempo para perder com tecnicidades ou fórmulas consagradas. 

Há no Álbum Branco canções que fariam qualquer banda vender a alma ao diabo para tê-las em seu songbook. O que dizer de Blackbird? Uma das mais belas criações do ser humano em sua passagem pela Terra. Completam essa lista de joias preciosas (algumas um tanto sombrias) Helter Skelter, While My Guitar Gently Weeps, Revolution 1, I’m So Tired, Happiness Is a Warm Gun, Back in the USSR e Julia. Mas há também canções, na melhor hipótese para os Beatles, de gosto duvidoso, como The Continuing Story of Bungalow Bill e Wild Honey Pie. As duas faces dessa moeda tornam esse disco um dos mais importantes documentos da virada dos anos 60 para os 70, período em que experimentar, ousar e questionar os cânones era tão essencial quanto viver. Alguma semelhança com os tempos atuais?

Pensando bem, olhando em superzoom a foto do meu pódio dos principais discos dos Beatles, é possível ver o Álbum Branco ao fundo da cena, garrafa de uísque na mão, cigarro no canto da boca, vestido de bata indiana, óculos escuros, botas de texano, dando risadas e batendo palmas irônicas para o sucesso de seus irmãos perfeitinhos, CDFs, tecnicamente impecáveis. É justamente esse malucão, cheio de contradições, que chega agora aos 50 anos e, talvez por isso, por ter sido criado à imagem e à imperfeição de seus pais, seja o mais atual dos álbuns dos Beatles.

O Álbum Branco é eterno, moderno e atual porque a obra humana é, em sua essência, imperfeita. O brasileiro Belchior (1946-2017) um dia cantou: “João, o tempo andou mexendo com a gente sim / John, eu não esqueço, a felicidade é uma arma quente”. No caso do Álbum Branco, o poeta cearense tinha total razão. É melhor a gente nunca se esquecer disso, principalmente aos 50 anos.

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