Rafael Arbex/Estadão
Rafael Arbex/Estadão

Álbum africano de Tiganá Santana busca a origem que antecede as próprias diferenças

Músico também é reponsável pela curadoria da 'Ocupação Dona Ivone Lara', no Itaú Cultural

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2015 | 02h06

A voz de Tiganá Santana sai em um grave espaçoso, daqueles de preencher tudo mesmo no volume baixo. A calma de seus olhos é eterna e suas mãos acompanham seus pensamentos com desenhos suaves. Ele senta-se em frente ao repórter, ouve a primeira pergunta e abaixa o olhar escolhendo o caminho, selecionando as palavras. Não parece ainda contaminado pelo novo ritmo que a vida começa a impor. Seu terceiro disco de carreira está pronto; um outro, gravado com a cantora Fabiana Cozza, está em processo de finalização; há um mestrado em Letras na USP aguardando preparação; e Dona Ivone Lara, a maior compositora do samba, será visitada em todos os seus valores com um projeto do qual ele é o curador.

Trinta e três anos, baiano de Salvador, filósofo formado pela Universidade Federal da Bahia, músico por influência primeira do avô, conhecedor dos terreiros de candomblé por vivência da mãe, Tiganá Santana faz de sua música mais um meio de transportar questionamentos filosóficos do que uma plataforma de exibição estética. Ele vai com ela à África do Senegal, onde gravou o álbum, para entender a África que o cerca. Mas tomá-lo como um pesquisador também é arriscado. A camada que propõe alcançar é tão profunda que pode eliminar mesmo a ideia de territórios. Tiganá quer ir onde tudo começou: "Gosto de reafirmar que não há uma nota que não esteja associada a um pensamento das origens."

Quando sua filosofia entra em estúdio, no entanto, ela tem de se tornar palpável. E o que se tem no disco que ele lança agora, Tempo & Magma, é a materialização de toda essa conversa. O álbum vem em duas partes, dois CDs. A primeira é Interior. Nza, que na língua kikongo quer dizer "universo", é aberta pela cantora Céu. Tiganá assume logo depois, discretamente acompanhado pela percussão de Sebastian Notini e pelas flautas de Malick Diop Fall. A música é circular, mântrica, de uma africanidade que aparece mais na frequência do que no ritmo. E será sempre assim.

O disco foi gravado em janeiro de 2014 no Prince Arts Studio, em Dacar, Senegal, de propriedade de compositor senegalês Youssou N'Dour. Um prêmio que Tiganá recebeu ao ser escolhido pelo Programa de Residência Artística da Unesco, que permitiu uma estada de quatro meses no Senegal para conhecer e trocar experiências com músicos locais. O disco, no Brasil, foi viabilizado graças ao patrocínio do programa Petrobras Cultural.

Interior, no conceito, seria mais calmo, de maiores vazios do que o segundo CD, chamado Anterior. Céu, em Interior, volta a cantar na delicada There Is a Baml in Gilead / Luzingu, um spiritual tradicional da cultura afro-americana unido a uma criação de Tiganá. A seguinte é Enigma, com o instrumento de cordas ngoni, uma espécie de ancestral dos violões; os atabaques de Sebastian Notini e a voz e o violão dedilhado com cinco cordas de Tiganá (que ele batizou violão-tambor). Uma intenção instrumental, apesar de vocalizada, de quase quatro minutos que os africanos poderiam estender facilmente para 20 sem atropelarem o tempo.

Anterior, o CD que vem propositalmente depois de Interior, é mais cheio, de maior vibração. Chega com as forças do terreiro em Congo-Angola-Bahia, com uma formação mais cheia, de agogô, djembe, caxixi e cabaça. Volta a ser calma no início de Encarnações em Kodya até que o violão solto de Tiganá puxe de novo o mantra para a entrada de um grupo volumoso de percussão. E volta a tirar os pés do chão com sutileza em Sobo-Bade. Quando não faz vocalizes improvisados, Tiganá canta em idiomas africanos sem traduções nos encartes. O português aparece poucas vezes.

Sobre as diferenças entre Interior e Anterior, Tiganá deixa para "os mistérios". "Cada um ouve à sua maneira. Também faz parte do pensamento aquilo que você não pode explicar, o que você sente mas não pode verbalizar. Não faz mal que as pessoas não entendam a língua. Existem as frequências que podem levá-las àquele universo."

O que faz de Tiganá uma voz de força em um território já tão vasculhado não é apenas os passeios inusuais que ele faz de mãos dadas com a filosofia. Sua música vai às raízes sem panfletarismos e chega a um resultado descontaminado de harmonias brasileiras. Fica assim na fronteira, a um passo de se tornar um brasileiro na África ou um pretenso africano no Brasil. Já que buscar origens é sua especialidade, elas também podem explicar o discurso que esbarra na autoafirmação. Aos 13 anos, Tiganá entrou na sala de aula e percebeu os amigos sorrindo, escondendo dele uma folha de papel. Soube então que haviam escrito uma série de piadas racistas que não queriam que ele visse. O garoto reclamou na diretoria e seus argumentos fizeram a escola abrir uma série de debates contra a discriminação de cor, de sexo, de regionalismos. Levá-los agora até os povos que deram origem a tudo foi sua melhor resposta.

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