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Álbum abriu portas para experimentos

Roqueiros não gostam de jazz. Jazzistas não gostam de artistas pop. Para Milton Nascimento, Native Dancer (1974) foi o disco que provou que tudo isso era cascata. "O disco, em minha opinião, abriu as portas para todo mundo tocar com todo mundo, sem preconceito", disse o cantor, falando ontem ao Estado por telefone, de sua cidade natal, Três Pontas (MG).

O Estado de S.Paulo,

13 de maio de 2011 | 06h00

Se Milton pretende ver os shows do quarteto de Wayne Shorter em SP e Rio? "Eu? Claro. Tem São Paulo e Rio? Então vou nos dois. Se ele quiser, canto com ele."

As memórias de Milton daquele Natal de 1974 às vezes não batem com as de Wayne Shorter, mas o ‘Bituca’ é rápido em resolver a dúvida. "Eu confio muito mais na cabeça dele", arremata.

De qualquer modo, eis como Milton lembra de tudo: ele e sua banda estavam, por volta de 1972, fazendo uma temporada do Blues de Esquina num teatro no Rio, na Lagoa Rodrigo de Freitas. "Sempre fui adepto sacramentado de Miles Davis. Naquele ano, o Weather Report veio tocar no Rio, e o Wayner Shorter chegou perguntando "Onde está o Milton Nascimento?".

Segundo Milton, os promotores do show de Wayne não iam com a sua cara, e mentiam dizendo que ele provavelmente estava no Norte do País, fazendo shows "na selva". Mas esqueceram de um detalhe: a mulher de Wayne na época, Ana Maria, falava português e leu no jornal que Milton, Lô Borges, Beto Guedes e o pessoal do Clube da Esquina estavam no Rio. Saiu gritando: "Wayne, o Milton tá no Rio".

"Quando soube que o Wayne Shorter estava na plateia, eu disse: então não vou entrar", lembra Milton. Mas entrou, e ele diz que, a partir dali, durante toda a temporada, o grupo de Shorter encurtava os próprios shows para ir até o teatro da Lagoa para ver o de Milton. "Foram todos os dias. Até que o Wayne chegou pra mim e perguntou: Quer ir gravar comigo nos Estados Unidos? Eu: Mas claro."

Dois anos, depois Milton receberia um telefonema. "Milton? It’s time!", dizia a voz do outro lado. "Praticamente, aquilo salvou a minha vida. Eu ia para a Itália, gravar o Sentinela com uns frades italianos. Tava tocando com o Som Imaginário, e tudo era pura confusão. Tava um quiprocó danado", conta.

Shorter voltou a ligar para combinar detalhes e perguntou se Milton gostaria de levar alguém. Ele disse: Wagner Tiso e Robertinho Silva. Foram a Nova York e flanaram pela noite enquanto a gravação ia sendo agendada. Um dia, num clube, era aniversário do Chick Corea e alguém pediu para Milton tocar. Ele tocou Ponta de Areia, mas nenhum dos músicos presentes conseguiu acompanhá-lo. "Caramba, derrubei o povo!", lembra Milton.

Aí ele se virou para Shorter e disse: "Quando gravarmos o disco, quero que essa seja a primeira música do Lado A". Shorter riu: "Você faz uma música que parece de criança e aí é uma complicação danada", brincou. Então, foram para a Califórnia gravar. O produtor era Jim Price, que trabalhava com os Rolling Stones. E o resto já se sabe. "Quando o disco saiu, foi uma loucura", conta Milton. "Quase 10 anos depois, eu estava em Los Angeles e um cara na piscina me chamou. Fui ver o que era. Era o Maurice White, do Earth Wind and Fire, que disse que me chamou para me agradecer. Disse que a banda dele nasceu após ele ouvir as sessões de gravação do Native Dancer. Ele estava lá ouvindo, eu só soube muito tempo depois."

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