Alaíde Costa festeja 50 anos de carreira com novo CD

A carreira da cantora, como profissional, começou no Dancing Avenida, em 1955, com carteira assinada, 50 anos atrás. Ela completa 70 anos em dezembro e lembra que gostava de cantarolar as músicas que ouvia no rádio da mãe. Seu irmão mais novo achava sua voz tão bonita que a inscreveu num programa de calouro de bairro. "Eu não queria ir, era muito tímida. Ele me falou que tinha de ir, senão a polícia ia me prender. Fui e ganhei."A partir daí, Alaíde acabou percorrendo todo o circuito do gênero nas rádios, de Paulo Gracindo a Ary Barroso, arrebatando apresentador, público e, de quebra, o primeiro lugar. "Sempre tive sorte de sair vencedora", diz, com modéstia sincera. No meio do caminho, havia sempre o problema da timidez, contornado por família e dos amigos, com um sábio empurrãozinho. Foi assim que expôs sua voz, gravou o primeiro disco, caiu nas graças de músicos como Tom Jobim e Vinicius de Moraes e foi levada a integrar a turma da bossa nova pelo próprio João Gilberto.Com o novo CD, Tudo que o Tempo me Deixou (Lua Music), os percalços não foram abrandados. O álbum, que traz três músicas inéditas suas, já havia sido apresentado para outras duas gravadoras que, segundo ela, a enrolaram. "Houve uma gravadora que enrolou tanto que, ano passado, fiz show de lançamento no Theatro São Pedro, com o teatro lotado, sem o disco". Em sua casa sem luxo, no bairro paulistano Jardim Bonfiglioli, onde vive e deu entrevista ao Grupo Estado, Alaíde diz que esperava mais reconhecimento. Por sua história e importância, ela, de fato, merece. E o que o tempo deixou para você? Muitas alegrias, mas muito mais tristezas e decepções. Mas não fiquei com o lado mais triste e decepcionante não. Procuro me agarrar à alegria, senão fica muito difícil. E como você montou repertório? Pensei no passado, por exemplo. O passado é a canção da Sueli Costa e Abel Silva, Voz de Mulher. A Fátima Guedes é coisa bem presente, com Minha Nossa Senhora, que tem tudo a ver com o que estamos passando. O futuro ficou para trás, como diz a música Tudo que o Tempo me Deixou. Tive liberdade de eu mesma montar repertório. A única coisa que me pediram foi para colocar uma canção da Dolores Duran. Cantei muito Dolores nos anos 50, mas muita gente a cantou e gravou. Acabei ficando com a música Solidão, que fala bastante do que sinto. Às vezes, sinto uma solidão muito grande, embora tenha um monte de gente em volta. Você é compositora também, mas parece ter preferido se voltar mais para a carreira de intérprete. Você pensa em fazer um CD só com canções suas? Nunca consegui uma gravadora que fizesse um trabalho só com minhas composições. Tenho um projeto desse tipo. Mas como você teve liberdade de escolher o repertório desse CD, você incluiu canções suas, como a parceria inédita com Tom Jobim, Você É Amor... Tenho um projeto Alaíde Canta Tom Jobim desde 1990. Eu já cantava Você É Amor em shows, só não havia gravado ainda. Esse canção foi feita em 61, na casa do Vinicius (de Moraes). Eu estava lá, cantarolando. Fiquei tão emocionada, porque o Tom disse: "Que coisa bonita, de quem é?" Eu respondi que era minha. Virou uma parceria.

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