Alaíde Costa canta a tristeza por trás da folia

Há sempre uma ponta de tristeza por trás do mais alegre dos sambas, da mais animada das marchas. É característica da música de raízes negras das Américas - o mais suingado dos blues tem uma ponta de tristeza. Traduz-se, aliás, a palavra "blue" por "triste". Foi nisso que o compositor e produtor musical Hermíno Bello de Carvalho pensou quando, há alguns meses, ligou para a cantora e velha amiga Alaíde Costa. Propôs-lhe: "Alaíde, vamos gravar um disco de carnaval?"Alaíde pensou: Hermínio estaria brincando. Como poderia alguém imaginar um disco dela com músicas de carnaval? Afinal, Alaíde é uma cantora camerística, talvez a mais intimista das intérpretes da música popular brasileira. Mas Hermínio insistiu. Disse: "Vou mandar para você uma relação de músicas. Você escolhe aquelas de que mais gosta e nós montamos o disco." Alaíde continuou sem entender. Por delicadeza, concordou. "Mas fiquei achando que o Hermínio não estava muito certo da bola", achando graça - hoje, achando graça.É que o compositor não havia explicado o propósito: ele havia imaginado um disco de músicas de carnaval em que ficassem explícitas as delicadezas, as tristezas, os dramas de amor que quase toda marchinha de carnaval esconde por trás do espalhafato do ritmo, do canto acelerado, das orquestrações com sopros altissonantes e rufantes tambores.Não seria necessariamente um disco triste, porque a marchinha só pode esconder a tristeza por sua estrutura musical de natureza alegre. No fim das contas, Alaíde escolheu 16 músicas. Ou melhor, escolheu 14. Hermínio valeu-se da prerrogativa de produtor e amigo íntimo e aconselhou dois títulos, que Alaíde não conhecia: Aí, Hein?, de Lamartine Babo e Paulo Valença, gravada originalmente por Araci de Almeida, em 1930, e Batente, de Almirante, que Mário Reis gravou no ínicio dos anos 40.Entrou ainda uma outra canção, bem mais nova, que funciona como vinheta instrumental de abertura e encerramento do disco: Sonho de um Carnaval, uma das músicas que proclamou, em 1965, a genialidade de um insurgente Chico Buarque de Holanda.O disco recebeu o título de Rasguei a Minha Fantasia, da marcha de Lamartine Babo de 1935. É o esse o disco que Alaíde lança nos shows que fará amanhã e depois, no Sesc Vila Mariana. O CD tem o selo da gravadora Jam Music. Tem produção de Hermínio, direção musical e arranjos de Gilson Peranzzetta e João de Aquino e conta com um time de músicos do primeiríssimo time.Alaíde Costa, aliás, só canta acompanhada pelo primeiríssimo time. Desde que apareceu, no fim dos anos 50, foi chamada de "cantora dos compositores" - a voz predileta dos autores mais sofisticados, por sua afinação perfeita, pela interpretação de emoção represada (como convém a uma intérprete camerística, Alaíde não é de grandes gestos ou arroubos vocais; em compensação, cada breve movimento dos braços, cada pausa respiratória chegam ao ouvinte repletos de sentidos).Carioca radicada em São Paulo, Alaíde Costa Silveira Mondin Gomide nasceu em dezembro de 1935 e começou a cantar ainda criança. Tinha 13 anos quando venceu um concurso para cantoras jovens promovido pelo radialista e ator Paulo Gracindo, na Rádio Tupi do Rio. Apresentou-se em outros programas de calouros, que eram a febre da era de ouro do rádio e a via mais comum para o surgimento de novas vozes. Na Rádio Clube do Brasil, cantou no programa Pescando Estrelas, apresentado pelo exigente Ari Barroso. Foi contratada pela rádio, mas só foi lançar o primeiro disco, pela Odeon (hoje EMI), em 1957. Em compensação, ganhou o prêmio de revelação do ano. João Gilberto ouvia-a cantando, aproximou-se dela, aproximou-a da bossa nova. Foi assim que, em 1959, quando lançou o primeiro elepê, Alaíde Canta Suavemente, ela incluiu no repertório a modinha Estrada Branca, letra e música de Tom Jobim, o samba Lobo Bobo, de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli, e uma parceria de dois Joões esquivos e genias, Gilberto e Donato - Minha Saudade. Em outras palavras, foi Alaíde quem lançou João Gilberto e João Donato como compositores.Alaíde veio para São Paulo em 1962. Dois anos depois, lançou seu grande sucesso popular, Onde Está Você?, de Oscar Castro Neves e Luverci Fiorini. Nesse momento, poderia ter-se tornado uma cantora de grande público. Mas preferiu a fidelidade a um tipo de repertório mais intimista, em respeito à exigência de sua percepção estética.Em 1972, ela gravou, com Milton Nascimento, no elepê Clube da Esquina, o samba Me Deixa em Paz, de Monsueto Menezes e Aírton Amorim. Os dois emprestaram à música um tom triste, que não havia nas gravações anteriores. Ali já estava sugerido o que Alaíde faria nesse Rasguei a Minha Fantasia.É um repertório de clássicos: Mal-me-Quer, Dama das Camélias (Alcir Pires Vermelho e Braguinha), Meu Consolo É Você (Nássara e Roberto Martins), Se a Lua Contasse (Custódio Mesquita), Não me Diga Adeus (Paquito, Soberano e João Correia da Silva) e assim por diante. Além disso, Alaíde vai mostrar músicas de sua autoria - entre elas, uma parceria inédita com Tom Jobim. Mas a força do espetáculo estará na releitura das velhas músicas carnavalescas que, como diz Hermínio, despudoradamente românticas, porém camufladas em confetes e serpentinas, rimavam amor e dor com a maior desfaçatez.Alaíde Costa. Amanhã e quarta-feira, às 20 horas. R$ 2,50 (estudantes), R$ 3,50 e R$ 5,00. Sesc Vila Mariana. Rua Pelotas, 141, tel. 5080-3000. Até quarta.

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