Raymond Boyd/Divulgação
Raymond Boyd/Divulgação

Al Jarreau e Marcos Valle põem bossa nova no Rock in Rio

Os dois só vão se encontrar para ensaiar três dias antes do show que farão juntos no Palco Sunset, em 27 de setembro

Roberta Pennafort / Rio, O Estado de S. Paulo

07 de setembro de 2015 | 10h00

Trinta anos após sua apresentação memorável no primeiro Rock in Rio, Al Jarreau guarda lembranças tão vivas quanto inusitadas do festival: “Nunca tinha cantado para 200 mil pessoas. Saí do palco e fiz xixi nas calças”, conta por telefone, rindo, o cantor norte-americano de 75 anos, ganhador de sete prêmios Grammy em cinco décadas de carreira.

“Foi meu maior público. Lembro também da sensação de ouvir aquelas vozes todas cantando You’ve Got a Friend com James Taylor, como se fosse uma liturgia, uma Ave Maria na Basílica de São Pedro.”

No Rock in Rio, que começa dia 18, Al Jarreau estará de volta com seus hits dos anos 1970, 1980 e 1990, seu repertório em homenagem ao amigo George Duke (1946-2013), do último disco, lançado há um ano, e um convidado do qual pouco ouviu falar: Marcos Valle. “É o compositor de So Nice (versão em inglês de ‘Samba de Verão’)? Que coincidência! Para meu disco com músicas de George Duke, letrei uma que se chama Summer Breezin (‘Brisa de Verão’), que começa assim: ‘I wish someone play a bossa nova’ (‘quero que alguém toque uma bossa nova’). Como é possível essa coincidência mágica? É Deus.”

Contemporâneos (Valle tem 71 anos), os dois só vão se encontrar para ensaiar três dias antes do show, marcado para o Palco Sunset, no dia 27.

O Sunset é o espaço das misturas musicais – nessa edição, são aguardados encontros como o de Baby do Brasil e Pepeu Gomes, juntos depois de 27 anos, o de Alice Caymmi com Eumir Deodato e o de Erasmo Carlos com Ultraje a Rigor.

A curadoria é do cantor Zé Ricardo: “Al é um dos meus heróis. Pensei no Marcos, que é um dos caras mais atuais da bossa nova, para falar da influência da bossa na música do Al, nos scats, no tipo de harmonia que ele procura para cantar”.

Além do inevitável Samba de Verão, o repertório não deve se afastar dos sucessos de Al Jarreau, como We’re in this Love Together, Morning, You Don’t See me e Your Song, e outras bossas – há um ano, em show no Rio das Ostras Jazz Festival, na Região dos Lagos do Rio, ele cantou Mas Que Nada e Só Danço Samba. “A bossa nova mudou a minha vida.

Em torno de 1967, 1968, eu cantava com Julio Martinez, um artista mexicano-americano, na Califórnia, no chamado ‘estilo brasileiro’. Foi um dos períodos mais importantes da minha vida.”

“Sou o que sou por causa do jazz que ouvi minha vida toda, e a influência que vem em seguida é a bossa. Levo o Brasil a Paris, Berlim, Roma. Nos anos 1960, eu cantava Garota de Ipanema, Água de Beber. João Gilberto, Astrud Gilberto, Sergio Mendes, Wanda Sá, João Donato, estavam no meu coração.”

No Rock in Rio de 1985, quando os artistas cantavam duas noites, ele teve como companheiros de line-up Ivan Lins, Elba Ramalho, Gilberto Gil, James Taylor, George Benson, Alceu Valença e a banda Yes. Desta vez, quem vai dar expediente dobrado é Marcos Valle: ele toca também na Rock Street, espaço ao ar livre da Cidade do Rock. 

“Vai ser um barato. Ouvi muito os discos do Al Jarreau e acho que o jazz, r&b e pop que ele faz tem muito a ver com a música brasileira”, diz o músico, acostumado a participar de festivais que misturam estilos musicais, como Glastonbury, na Inglaterra, e Roskilde, na Dinamarca.

“Fico muito à vontade. Acho legal essa sedução musical do público. É o mesmo que acontece quando artistas como Jay-Z, Kanye West e Pusha T sampleiam minha música”, compara Valle, cuja produção das décadas de 1960, 1970 e 1980 foi descoberta por jovens DJs em meados dos anos 1990.

No show, Valle vai tocar teclado, deslocando o tecladista da banda de Al Jarreau para a flauta. O cantor norte-americano, que faz 50 shows por ano pelo mundo a despeito da dificuldade de locomoção decorrente da estenose (estreitamento de vasos sanguíneos) que lhe acometeu as duas pernas, diz que está em forma para o palco: “O problema abriu uma nova porta para mim, me fez concentrar mais na música, cantar melhor. E nunca dancei como o Michael Jackson ou a Beyoncé mesmo!”.

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