Al Green traz de volta seu suingue sagrado em 'Lay it Down'

Mestre da soul music americana fala sobre elogiado disco, no qual reconecta gênero com seus primórdios

Jotabê Medeiros, de O Estado de S. Paulo,

17 de setembro de 2008 | 16h53

Garotinhos e garotinhas devem pensar que o inescapável hit Crazy, de 2006, cantado por Cee-Lo Green, do grupo Gnarls Barkley, é a canção que inventou a soul music. Ou que aquele balanço quebradão de Back to Black, de Amy Winehouse, está embebido do próprio sangue da música negra americana. Veja também: Ouça trecho de 'Standing In The Rain'  Mas eis que reaparece o reverendo Al Green, o imortal autor e intérprete de Let’s Stay Together e Love and Happiness, aos 62 anos, para recolocar os pingos nos is e lançar um disco que reaviva todas as memórias. Trata-se de Lay it Down (EMI), produzido por dois nomes-chave da nata do hip-hop americano - Ahmir "Questlove" Thompson, do grupo The Roots, e James Poyser, que já produziu discos de Lauryn Hill. "É um retorno ao som clássico de Al", sentenciou Michael Endelman, editor da Rolling Stone americana. Para Endelman, as participações especiais do disco - Corinne Bailey-Rae, John Legend e Anthony Hamilton - contribuíram para "rejuvenescer" a música do velho pastor, que desde o final dos anos 1970 tinha mergulhado com intensidade num repertório gospel, muito mais preocupado em dar graças ao Senhor. Um pouco mais gordinho, um tanto quanto parecido com Agnaldo Timóteo, o admirável pregador está colhendo os louros de sua nova obra-prima, elogiada quase com unanimidade nos mais diferentes jornais e revistas. "Lay it Down é maravilhoso", cravou Chris Jones, da BBC londrina. "Do fogo ameno da primeira, a música-título, eis Green no papel de Homem do Amor e na sua mais perfeita forma", escreveram na Mojo. "Lay It Down deixa claro que a devoção de Green ao primado dos grooves de sua música só fica mais profunda com a idade", decretou a Spin. "A voz de Green permanece mágica", assinalou a Billboard. O homem, que andou esquecido por conta de sua conversão irrestrita ao gospel, falou ao Estado sobre o disco, em entrevista por telefone. "Sim, eu sou famoso pelo lado cristão, mas sou famoso também pelo lado do amor. Muitos dos Grammy que eu ganhei foram por discos de música cristã. Mas também sou o Al que fez sucessos como Let’s Stay Together e Love Is Happiness. A diferença é que aquilo foi no começo da carreira. Agora, Lay it Down é a essência de tudo. É o começo do cume", afirmou o cantor. Essa divisão entre a missão sagrada e a vocação para o entretenimento sempre bateu ponto na obra de Al. Depois de legar ao mundo aquela que é considerada sua obra máxima, o álbum Call Me (1973), ele saiu alguns anos depois com o álbum Belle (1977), no qual dizia o seguinte: "É você que eu quero, mas é d’Ele que eu preciso." Divertido, irreverente, Al Green comentou sobre a experiência de gravar com ídolos de uma nova geração, como Ahmir Questlove e James Poyser. "Eles são capazes de sentar num estúdio para uma gravação e trabalhar todos numa mesma direção. Ali não havia estrelismo, estava todo mundo no mesmo nível", disse. Anteriormente, ele contara que o que os aproximou dos novos produtores não foi apenas sua fama e a vontade de "rejuvenescer" seu trabalho, mas o fato de que eles vieram a ele com humildade, pedindo que escrevesse as canções. "Eu não tinha nenhuma composição nova. Mas, na primeira noite no estúdio, escrevi oito novas músicas. A música veio baixando e eu não queria parar. Fomos até as 2 da manhã e, menino, eu fiquei exausto. Eu me dei inteiro à música." Al Green surpreendeu ao dizer que não conhece Cee-Lo, do Gnarls Barkley, mas Amy Winehouse não lhe passou despercebida. "Amy, eu conheço. Ela não tem nada a fazer numa clínica de reabilitação. Não, não, não! Ela não precisa", ele disse, às gargalhadas. Só ficou mais sério no momento em que comentou a morte de Isaac Hayes, que morreu no dia 10 de agosto de ataque cardíaco. "Que tragédia! Todo mundo em Memphis dizia: o quê? Não acredito", ele lamentou. Mas não vociferou contra a fatalidade ou as forças do destino. "Ele tinha 65 anos. Se era muito jovem para morrer? Não sei. Você não precisa ter um treinador para saber disso. Tem de cuidar da alimentação. Você precisa se cuidar. Fazer dieta quando tem de fazer dieta. Senão, de repente, acontece", afirmou. Considerado o maior cantor de soul e R&B da era de ouro desse gênero ainda vivo, nascido em Forrest City, Arkansas, Al Green começou muito cedo. Aos 9 anos, já integrava o quarteto gospel Green Brothers. Diz a lenda que o pai de Al o "demitiu" do grupo familiar depois de tê-lo flagrado ouvindo Jackie Wilson. Aos 16 anos, ele formou outro grupo, Al Green and The Creations, e começou sua lenda. Green sedimentou o som que se chamaria de "southern soul", ou a soul music sulista. Seu trabalho com o mítico produtor Willie Mitchell, nos anos 1970, influenciou não apenas cantores do mundo todo, mas até veteranos como Marvin Gaye. Quando estava no auge de sua popularidade, uma ex-namorada invadiu sua casa em Memphis, ateou fogo ao próprio corpo, fez um barraco e matou-se com a arma do cantor.  Depois disso, Al Green voltou-se para Cristo e ordenou-se pastor pela igreja Full Gospel Tabernacle. Ele ainda continou lançando discos, mas a chegada da disco music acabou relegando-o ao esquecimento precoce. Durante seu reinado, antes desse incidente, Al alimentou muitos romances com suas canções mais ousadas de amor, algumas picantes e eróticas. Ele afirma que colocaria seu novo álbum diretamente entre suas obras-primas, sem nenhum temor. "Acho que esse álbum vai direto para a mesma categoria de Simple Beautiful. Vai direto para lá, para a mesma categoria de I’m Still in Love With You", ele diz, e no meio da frase cantarola: "Shalaláshalalá". "Tem gente que vem e me diz: você me disse para fazer isso, e não deu certo. Eu respondo: hey, isso é entre você e sua mulher, não é da minha conta. É uma canção de amor, é sobre o amor. E eu acho que isso é bom." Sobre o trabalho com Corinne Bailey-Rae, John Legend e Anthony Hamilton, que dividiram as vozes com eles em algumas das principais canções, ele diz que foi completamente natural. "Eu não dei a eles nenhum conselho. O que se aplica a eles, se aplica a mim. Disse apenas para que fossem eles mesmos, para fazerem suas próprias versões, suas próprias interpretações. Para Corinne, disse para ela apenas administrar o seu tempo. Cada um trouxe sua própria contribuição. Deixem as canções serem o que elas são."

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