Charles Sykes/Invision/AP, File
Charles Sykes/Invision/AP, File

Ajoelhe-se, é Clapton

Artigo publicado na revista 'Rolling Stone', edição especial Os 100 Maiores Artistas de Todos os Tempos

Steve Van Zandt, Rolling Stone

28 Março 2015 | 16h00

ERIC CLAPTON é o guitarrista mais influente que já viveu, vive ou viverá. Faça um favor a si mesmo e nem tente discutir isso comigo. Antes de Clapton, a guitarra no rock era o método Chuck Berry, posteriormente modernizada por Keith Richards, e o som do rockabilly – Scotty Moore, Cliff Gallup, Carl Perkins – popularizado por George Harrison. Clapton absorveu tudo isso e introduziu a essência do blues elétrico negro e o vocabulário de Buddy Guy, Hubert Summlin e dos Três Reis Magos - B.B., Albert e Freddie King - para criar um ataque que definiu o fundamento da guitarra solo de rock and roll.

Talvez o mais importante de tudo, ele aumentou o volume do amplificador no talo, o que por si só fundiu a cuca de todo mundo nos anos 60. No estúdio, ele moveu o microfone para o lado oposto da sala, longe do amplificador, o que adicionava atmosfera à gravação; enquanto todo mundo ainda usava o amplificação colada à caixa. E aí ele aumentou no máximo. Surgiu o sustain, a microfonia distorcida. O guitarrista de repente se tornou o cara mais importante da banda.

Intelectualmente, Clapton era um purista, embora houvesse pouca evidência disso no começo. Ele sobrecarregava cada riff que conhecia, mesmo coisas que lembro serem tributos nota por nota , como “Hide Away”, de Freddie King, do álbum John Mayall Bluesbrakers with Eric Clapton. Quando ele solou, compôs sinfonias maravilhosas a partur de licks clássicos do blues naquele tom fantástico, com toda a ressonância que vem da distorção.

Eu vi Clapton pela primeira vez com o Cream no Café a Go-Go em Nova York, em 1967 – ou quase isso. Fiquei de fora, o lugar estava completamente lotado, mas podia vê-los, a banda estava bem na janela da frente. E o som era alto, mesmo do lado de fora. Naquele tempo, musicalmente, Eric era totalmente pirado. Ficava lá sem mover um músculo, enquanto despachava o ataque mais selvagem que você já experimentou, a não ser que você tenha estado presente na premiére de “1812 Ouverture” de Tchaikovsky e sentado em frente ao canhão. Quando sua criatividade, paixão, frustração e raiva se encontravam, era apavorante. Seu solo em Crossroads em Wheels of Fire é impossível, não tenho ideia como ele segurava o tempo enquanto toca.

Eu nunca troquei mais do que um "oi" informal com Eric, portanto nada disso é informação privilegiada, mas acredito que sua forma de tocar mudou radicalmente nos anos 70, porque cantar e compor se tornaram mais importantes para ele. Robert Johnson tem tudo a ver com isso. Clapton estava tão envolvido pela música de Johnson que queria ser capaz de escrever e cantar com a mesma paixão, clareza e honestidade. Você pode ouvir sua frustração - de não ser capaz de conseguir isso - em sua guitarra dos anos 60.

A primeira vez que ouvi raiva e agressividade sexual expressas no som de uma guitarra foi nos discos de John Mayall. Se o solo de “Have you Heard” não é o som de um pau rompendo as calças em direção à terra prometida, não sei o que é .

Basement Tapes de Dylan e Songs from the Bing Pink da The Band iniciaram um retorno ao som da América e aqueles discos foram uma grande influência para Clapton. Na mesma época, Delayne e Bonnie Bramlet o encorajaram a compor e cantar, e è possível conferir o quão bom ele se tornou em ambas as coisas no seu álbum de estréia Eric Clapton, que gravou ao mesmo tempo em que passava da suja Gibson para a limpa Stratocaster.

Layla para mim foi a ultima vez em que voz, composição e guitarra estão na mesma intensidade. Trata-se da mais original interpretação do blues por Clapton, justamente por que os cães do inferno que o perseguiam tinham uma face: amor não correspondido.

Mas a guitarra de Clapton ainda hoje é magnífica. O caso é que ele foi por sete anos o mais extraordinário guitarrista de todos os tempos e passou os quarenta anos subseqüentes fazendo apenas um bom trabalho.

Ser o melhor acaba consumindo você. Então ele pisou no freio, assim como Dylan e Lennon fizeram. O sprint é bom, mas a maratona é ainda melhor. Clapton seguiu os passos de seus heróis, ele se tornou um trabalhador competente.

Todos os que tocam guitarra solo têm uma dívida de gratidão para com ele. Clapton escreveu a linguagem fundamental, definiu o código binário que todos usamos hoje em dia.

O dia virá em que você, jovem roqueiro, ouvirá uma das baladas melosas de Clapton no rádio e pensará: "Mas o que esse cara tem de mais?". Então, coloque Steppin' Out para tocar. E ajoelhe-se.

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