Aisha Orazbayeva mostra o seu violino sem limites em novo álbum

'The Hand Gallery' é um dos discos mais originais de 2014

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S. Paulo

18 de agosto de 2014 | 10h42

A atrevida violinista Aisha Orazbayeva, nascida há 25 anos no Cazaquistão e hoje radicada em Londres, assina um dos mais originais CDs de 2014, The Hand Gallery (PRA Recordings). 

É um CD de violino solo, mas não se assuste. Ela leva à risca o mote da música sem adjetivos: “Para mim, música é musica. Só isso. Não quero me especializar”. Aparentemente, uma frase-chavão. Mas à medida que se ouve este excepcional The Hand Gallery, fica fácil entender o alcance e sinceridade incrustados nesta pequena declaração. 

Aisha desconstrói o violino, sem barreiras, sem fronteira alguma. Ela tocou no Ensemble Modern, um dos grupos europeus mais qualificados de música contemporânea. Gosta de Lachenmann e Birtwistle, dois compositores que não fazem concessão em suas criações. The Hand Gallery é seu segundo disco. 

O primeiro, de 2011, era mais ortodoxo, na trilha da música contemporânea mais radical: trazia peças de Salvatore Sciarrino, Ravel e Helmut Lachenmann. Mas agora ela constrói um caleidoscópio deliciosamente abrangente das músicas atuais. Assim mesmo, no plural. Duvida? Então ouça Harbour Lights, o clássico de 1954 de Elvis Presley. 

Ela reinventa a canção, assumindo o vocal e reproduzindo a combinação original de guitarra e baixo com três violinos tocados em pizzicato. Um espanto.

Não estamos, porém, diante de mais um músico oportunista misturando clássicos com música popular. A prova, Aisha nos dá com duas versões da mesma música, For Aaron Copland, do compositor norte-americano Morton Feldman, parceiro preferencial de John Cage e injustamente pouco conhecido. 

Na primeira, imprime um clima melancólico, nostálgico; na segunda, imita com perfeição instrumentos de sopro, uma mágica que supostamente o violino não poderia fazer. 

Em composições próprias, mostra que tem o que dizer no reino da música experimental. Como em Two Sounds Two, por exemplo, onde tira sons do interior do corpo do violino. Recria de modo excelente o minimalismo de Steve (Violin Phase). 

Porém, a cereja mais adorável neste atrevido e excepcional cupcake são duas incríveis versões de Aisha – a primeira vocal, a segunda instrumental – para o clássico pop Baby You Know, de John Cale. 

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