Victor Kobayashi
Victor Kobayashi

Airto Moreira, 50 anos depois, lança seu primeiro 'disco brasileiro'

Com shows no Sesc 24 de Maio, em São Paulo, e no Blue Note, do Rio, percussionista que gravou com Miles Davis e Chick Corea faz lançamento de 'Aluê'

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2017 | 06h00

Airto Moreira começou a rir e desligou. Não havia a mínima possibilidade de Miles Davis no início de sua fase conhecida como “período elétrico” mandar ligarem para “the brazilian guy” a fim de convidá-lo para uma gravação. “Mr Moreira, sou o empresário e Miles Davis. Ele pede que o senhor venha ao estúdio na próxima segunda-feira para gravarem juntos.”A resposta de Airto foi curta: “Quem está falando? Ok, passe bem.”

Mas o telefone tocou de novo e a história do menino nascido em Santa Catarina, crescido em Curitiba e descoberto no começo dos anos 1960 ao lado de César Camargo Mariano e Humberto Cláiber quebrando tudo no Sambalanço Trio ganhou seu Novo Testamento. Quem atendeu desta vez foi Lee Morgan, o trompetista que caminhava por sua residência. “Não precisa atender, deve ser brincadeira”, avisou Airto. Morgan trocou algumas palavras em inglês e retornou. “Eles querem você em Bitches Brew.” Uma das obras legendárias de Miles teria Airto na percussão.

Foi uma trajetória que se impôs às próprias decisões do brasileiro. De gig em gig, ele passou Herbie Hancock, Wayne Shorter, Jaco Pastorius, Dizzy Gillespie, Cannonball Adderley, Lee Morgan, Dave Holland, Keith Jarrett, Jack DeJohnette, Ron Carter, John McLaughlin, Quincy Jones, George Duke, Mickey Hart, Paul Simon, Carlos Santana, Michael Brecker, Zakir Hussain, Stanley Clarke, Chick Corea e Joe Zawinul. A revista Down Beat o elegeu o melhor percussionista do mundo por oito anos seguidos e o Brasil ficou pequeno. Não havia convite que o estimulasse mais do que o que o mundo lhe oferecia.

Cinquenta anos depois de sua partida para o exterior, em 1967, Airto Moreira vai lançar seu primeiro álbum brasileiro com shows de 7 a 10 de dezembro, no Sesc 24 de Maio. O Blue Note do Rio o recebe em 15 de dezembro. É seu primeiro trabalho tocando só com músicos de seu país e gravado no Brasil. Aluê, com algumas revisões de discos importantes e as inéditas Rosa Negra, Não Sei Pra Onde, Mas Vai e Guarany, tem os músicos José Neto (guitarra), a filha Diana Purim (voz), Sizão Machado (contrabaixo), Fabio Leandro (piano), Vitor Alcântara (saxofones) e Carlos Ezequiel (bateria e produção).

O álbum traz temas de discos espalhados por vários períodos de sua carreira. Do álbum The Sun Is Out, de 1989, ressurgem I’m Fine, How Are You e Lua Flora. A faixa Aluê foi extraída de Natural Feelings, de 1970. Alguns anos à frente e Misturada lembra a fase do álbum Three-Way Mirror, de 1987. 

“Esse disco é algo que eu queria fazer havia anos”, diz Airto Moreira, por telefone, dos Estados Unidos, onde vive. “Os convites sempre vieram, mas não havíamos virado ainda.” Os arranjos do baterista Carlos Ezequiel e José Neto de certa forma atualizam os temas com uma mão de obra de outra carga cultural. Há calor em Aluê, com um intenso solo de sax de Vitor Alcântara e o belo piano de Fábio Leandro. Misturada tem mais suingue de jazz brasileiro saindo das mãos de Carlos Ezequiel e do próprio Moreira. 

Airto conta que recebeu algumas ligações de produtores querendo a volta de um dos maiores grupos instrumentais de toda a história da música brasileira. O Quarteto Novo, que foi antes Trio Novo, tinha Airto Moreira na percussão e bateria, Theo de Barros no baixo e violão; e Heraldo do Monte tocando viola e guitarra. Hermeto Pascoal chegou com seu piano e reforçou o “dream team” que o País nunca mais veria de novo. Como todos estão ativos, são muitas as tentações para vê-los de volta aos palcos executando o repertório do único disco lançado pelo grupo, uma peça de colecionador gravada em 1967, mesmo ano em que Edu Lobo e Marília Medalha venceriam o Terceiro Festival da MPB com Ponteio, acompanhada pelo Quarteto. “Depois de tantos anos, estamos diferentes. Creio que Hermeto, por exemplo, nunca aceitou ao convite porque sua música mudou demais nesses anos todos. Imagina que seria preciso reunir essas pessoas para voltarmos naquele tempo...”

A percussão de Airto Moreira subverteu os estereótipos de Brasil já naqueles anos 1960. O País do samba, ficava evidente, tinha mais do que samba a partir de suas ideias musicais. Airto, desde seus anos ao lado de Cesar Camargo no Sambalanço ou de Hermeto Pascoal no Quarteto Novo, já pensava em música, não em percussão.

Moreira nunca foi pandeirista, cuiqueiro, surdista. “Eu só tocava música brasileira com os músicos no Brasil”, diz, lembrando de quando se apresentava com Johnny Alf no Stardust da Praça Roosevelt, em São Paulo. “Mas Johnny era jazz também” .

Não havia tapete vermelho para recebê-lo em sua chegada nos Estados Unidos. “Eu só queria um grupo para tocar”, recorda. Mas os grupos não eram nada fáceis. Sem a tal especialização, sua inserção era mais difícil em um tempo em que ninguém queria saber de percussão autoral, experimental ou coisa parecida. Airto desistiu dos brasileiros e foi bater na porta dos latinos.

“Eu só queria tocar um chocalho, balançar qualquer coisa para ter um grupo”, diz. Mas os latinos, como são ainda hoje, não permitem a fala de seu idioma musical com sotaque. “E aprendi depois, quando fui a Cuba com Dizzy Gillespie, que eles estavam certos.” Nada de liberdades poéticas. E Airto Moreira não era Johnny Alf, que caiu logo nas graças de Mongo Santamaria. Sem nada que o credenciasse a fazer parte do universo dos hispânicos, ele foi chamar no portão em que jamais pensou que seria atendido.

“Eu estava mal, não suporto tocar percussão sozinho. Não é música, é percussão, não tem como voar.” Começou então a ir nos clubes de jazz de Nova York e a ser chamado de “brazilian”.

No bairro negro e hispânico do Harlem, entrou no pequeno clube Harlem Nights e criou coragem ao ver o grupo de jazz se apresentando. “Posso trazer minha percussão?” Pode, mas desde que tomasse cuidado pelas ruas do Harlem. “Vão te assaltar”, avisavam os músicos. “Até eu descobrir que só precisava dizer a palavra ‘Brasil’”. “Ah, Pelé!”, dizia quem o abordava.

Airto tocou um, dois, três dias. Ao final da semana, viu o cartaz da entrada e descobriu que havia se apresentado sem querer nas gigs do pianista Thelonious Monk e do saxofonista Cannonbal Adderley. Livre, sem amarras folcloristas, sua percussão voou alto a partir do jazz.

Do Harlem Nights, o telefone tocou e Airto foi parar na banda de Miles Davis. A primeira sessão de gravação de Bitches Brew mostrou um Miles pouco, digamos, amigável. “O som está uma merda. Vou embora.” “E eu pensei que fosse culpa minha”, diz. Disco pronto, Miles convida Moreira para ir com seu grupo a Washington DC para uma agenda de shows. “Só que não vou te pagar nada”, disse o trompetista. “Tudo bem, eu nunca ganhei nada mesmo”, respondeu Airto Moreira. Ao final de duas semanas, Miles o entregou um bolinho de dólares enrolados. Eram US$ 800. “Isso é uma fortuna”, disse Airto. E Miles: “Se não quiser, eu não pago mais.” Os dois focaram juntos nos palcos por dois anos. 

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