Filipe Araujo/Estadão
Filipe Araujo/Estadão

'Aida', em cartaz no Municipal, tem boas vozes e leitura musical fluente

Espetáculo marca a estreia de John Neschling à frente de uma ópera no Teatro

João Luiz Sampaio, O Estado de S. Paulo

16 de agosto de 2013 | 19h33

Uma Aida tradicional, mas capaz de passar ao largo dos clichês e do kitsch normalmente associados à obra, aliada a uma leitura musical sólida e convincente, marcou na semana passada o início da primeira programação lírica do Teatro Municipal sob a direção artística do maestro John Neschling. A temporada se iniciou no dia 9 e vai até o dia 25 – mas a expectativa em torno de um dos mais famosos títulos do repertório fez com que, no meio da temporada, os ingressos para as dez récitas já tenham se esgotado.

Aida é antepenúltima ópera de Verdi e, portanto, já faz parte do que se costuma definir como o período da maturidade do compositor. Isso significa, na prática, um discurso teatral mais fluente, em que nada é supérfluo, na cena ou na música, que passam a ser vistas como uma só coisa. É em óperas como Aida – e também no Don Carlo, seu título anterior, ou em Otello e Falstaff, suas duas últimas óperas – que fica definitivamente clara a revolução que o compositor realiza no drama musical italiano.

Leia Também

Sob nova direção

Drama que, na Aida, se articula em torno do contraste entre o público e o privado, entre grandiosas cenas de conjunto e outras de tom mais intimista. Essa oposição – ou melhor, a necessidade do indivíduo de dialogar e, eventualmente, se curvar ao contexto político e social – é um dos grandes temas de Verdi. Mas, na Aida, é levado ao extremo pela monumentalidade do segundo ato, no qual acontece a célebre Marcha Triunfal, ou pelo caráter quase camerístico de cenas como o dueto final, em que os dois amantes – Aida e Radamés – perecem presos em uma tumba. E é a partir desses contrastes que se constrói a produção de Aida em cartaz no Municipal – em todos os seus elementos.

Primeiro, a música. A capacidade de evidenciar os diversos coloridos da partitura, sem nunca cair em fórmulas fáceis ou óbvias, é a marca da regência do maestro Neschling – e, não por acaso, a Orquestra Sinfônica Municipal alcançou desempenho como há muito não se via. Neschling mantém a fluência do discurso musical a partir da criação de ambientes sonoros distintos – seja nas texturas que explora logo no prelúdio inicial, seja no quarto ato, quando, à dureza da cena em que Amneris acompanha o julgamento de Radamés, segue-se o lirismo do dueto final entre ele e Aida.

Também entre os cantores, como no desempenho do Coral Lírico, o que se viu foram leituras matizadas dos personagens. Na estreia, a soprano uruguaia Maria José Siri criou uma Aida ao mesmo tempo delicada e sanguínea, totalmente no controle das muitas possibilidades vocais e cênicas do papel – enquanto, na récita de quinta-feira (15), a soprano italiana Maria Billeri preferiu fazer de Aida uma jovem assustada e confusa. O tenor americano Gregory Kunde, na estreia, interpretou um Radamés sólido, de agudos fáceis e boa presença cênica, reforçando o caráter heroico de um personagem que, na leitura do também americano Stuart Neill, na quinta, ganhou ainda tons de fragilidade e paixão.

Em ambas as apresentações, os baixos brasileiros Luiz Ottavio-Farias e Carlos Eduardo Marcos tiveram excelente desempenho – e, nelas, o inglês Anthony Michaels Moore, em que pese a forte presença cênica, ficou aquém das dificuldades do papel de Amonasro, uma das principais criações de Verdi para barítono. Restam as duas mezzo-sopranos: a finlandesa Tuija Knihtlä – uma Amneris de voz quente e intensa – e a italiana Laura Brioli, que, na quinta (15), não teve bom desempenho, forçando a voz a seus limites, abusando do vibrato e permanecendo praticamente inaudível em algumas passagens do quarto ato.

A concepção cênica do italiano Marco Gandini também nasce dos contrastes, que se tornam o substrato de sua direção. Emblemático, nesse sentido, é o terceiro ato, em que os diferentes momentos cênicos são construídos basicamente a partir da iluminação (assinada por Virginio Levrio), com um tom suave e delicado que contrasta com a crueza dos cenários de Italo Grassi. Fecha-se, assim, uma coesão no diálogo entre orquestra, cena e vozes que faz desta Aida um início promissor nesta anunciada nova fase do Teatro Municipal.

AIDA

Teatro Municipal. Praça Ramos de Azevedo, s/nº. Sábado (17) e nos dias 20, 22 e 24, às 20h; Dias 18 e 25, às 18h; Ingressos esgotados

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.