Ahmad Jamal, o pianista que viveu toda a era do jazz, fala ao Estado

Aos 83 anos, músico cuja sonoridade Miles Davis perseguia, toca em São Paulo no final de maio

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

14 de abril de 2014 | 23h03

Durante a entrevista, não se pode citar o nome anterior dele, nem perguntar a ele de dois críticos famosos (Leonard Feather e Ira Gitler), nem mencionar a Wikipedia, nem falar de religião. Senão não rola.

Mas, aceitas essas condições, falar com o "maior jazzista vivo tocando", conforme o pianista Ahmad Jamal é conhecido, resulta numa conversa agradabilíssima. Sua última vez no Brasil foi em 2010, acompanhado de James Cammak (baixo), Manolo Badrena (percussão) e Herlin Riley (baterista). Aos 83 anos, ele volta com a mesma banda como a grande atração do BMW Jazz Festival (no HSBC Brasil, de 29 a 31 de maio). Jamal falou com exclusividade ao Estado.

Olhando para trás em sua carreira, em 1959, o sr. gravou o disco At the Pershing...

1958. Mas foi quase, foi quase (risos). Eu comecei a gravar em 1951, alguns anos antes disso. Levou um longo tempo. Quase não há mais companhias de discos hoje. Mas eu tenho sorte, não tenho necessitado me preocupar nos últimos anos. Há ainda boas companhias por trás de gente como eu, Herbie Hancock, Dave Brubeck. Tenho contrato com o grupo francês Harmonia Mundi. Gravo pelo meu próprio selo, JazzBook Records, e a distribuição é pela Harmonia.

Em At the Pershing, havia o standard Poinciana, que foi o primeiro grande sucesso que o sr. gravou. O sr. tinha ideia que se tornaria um clássico?

Não é uma composição minha, foi composta por Nat Simon e Burnier. Já era conhecida antes de eu gravar, mas quando eu gravei se tornou um imenso sucesso. Eu a revivi, ela se tornou uma canção muito conhecida. Foi colocada depois em um filme, As Pontes do Condado de Madison, de 1995. Continua muito famosa até hoje. Poinciana é meu bebê, assim como tiveram seus bebês Duke Ellington, Beethoven, Count Basie. Boa música dura muito tempo.

O sr. gravou dois discos recentes. No primeiro, Blue Moon, o sr. tem três composições originais. No disco mais recente, Saturday Morning, o sr. tem sete temas originais. Pode-se dizer que o sr. está dando mais destaque à sua faceta de compositor hoje?

Tenho composto música desde que tinha 10 anos de idade. O que acontece é que o jazz é a música clássica americana. Você tem a música clássica europeia: Debussy, Beethoven, Ravel, blábláblá. Ocorre que, muitas vezes, você se sente impelido a cobrir as coisas que se oferecem. Eu toco piano desde que tinha 3 anos de idade. Toco minhas composições e as dos outros. Você conhece My Favourite Things, de John Coltrane? É uma das mais conhecidas canções tocadas por Coltrane, que tinha inúmeras composições. Mas My Favourite Things não é de Coltrane. Thelonious Monk é muito conhecido por Round Midnight, que ele compôs. Eu faço ambas as coisas: toco minhas próprias composições e todo o american songbook. Para responder sua questão, é a seguinte equação: eu toco 80% das minhas próprias composições e 20% das composições alheias. Ok?

Há uma frase sua que é muito citada: "Eu penso na minha música o tempo todo". O sr. reavalia sua própria obra o tempo todo?

Sabe, essa é uma questão muito boa. Há algo sobre o qual eu não tenho nenhum controle. Quando você examina a obra de Anton Tchekov, ou Duke Ellington, ou do saudoso Dave Brubeck, ou Horace Silver, você pensa de uma forma sobre a qual não tem nenhum controle. E isso é um dom. Todos têm um dom. Se você é um jornalista, pensa em jornalismo; se é um cientista, pensa em ciência todo o tempo; se é um médico, pensa em medicina; se é um escritor, pensa em literatura todo o tempo; se é um matemático, pensa em matemática. Eu não posso controlar minha compulsão em pensar em música todo o tempo.

 

 

 

Muitos dos grandes do jazz têm mais de 80 anos hoje em dia, como Ornette Coleman, Sonny Rollins e o senhor.

E Yusef Lateef, que morreu recentemente, era um dos mais ilustres schollars do mundo. Um dos últimos concertos de Yusef foi comigo. Músico maravilhoso. Deixou manifestos musicais estupendos.

O sr. vê jovens músicos chegando agora com capacidade para ocupar o lugar desses notáveis?

Nós temos uma expressão: tente ser melhor do que aqueles que ensinaram a você, porque assim haverá sempre esperança. Há muitos jovens músicos capazes, você só tem de ouvi-los. Revolucionários foram Charlie Parker, Phineas Newborn, Art Tatum, Dizzy Gillespie, Thelonious Monk. Há sempre esperança de que novos estejam chegando, em política, medicina, ciência, música, jornalismo. Tudo vai acontecer de novo, há músicos maravilhosos chegando. Revolucionários? A gente não sabe ainda. Tem que encorajar todos os jovens músicos.

Às vezes, o sr. examina a mitologia cultural americana. Por exemplo: o sr. gravou música de filme noir, como Laura, e música popular, como Gypsy, e a tradição da Broadway, em This is the Life. Por que faz isso?

Por que eu estudei Beethoven? Por que eu estudei Mozart? Eu ouço com a mente aberta todo tipo de música, desde que seja boa. O que fez a música de Oscar Peterson famosa? Foi uma canção pop, Tenderly. O que tornou Coleman Hawkins famoso? Body and Soul. O que nós fizemos, Art Tatum, John Coltrane, Oscar Peterson ou Dizzy Gillespie, foi gravar algo do american songbook. Louis Armstrong gestou a música clássica que nós chamamos de jazz, mas uma das coisas que o tornou conhecido foi a canção Hello, Dolly. E What a Wonderful World. Você não pode limitar a si mesmo. Músicos têm um vasto repertório. Eu era um garoto ouvindo Count Basie, Benny Goodman, as big bands; era um adolescente ouvindo Charlie Parker; hoje sou um adulto ouvindo essa eletrônica. Vivi todas as eras musicais, posso tocar minhas coisas e as que tiveram algum significado para mim. Como um jornalista deve ter lido Émile Zola, Ernest Hemingway.

Há uma citação famosa de Miles Davis dizendo a seus pianistas: "Toque como Jamal". O que acha que Miles Davis procurava com aquela exigência?

Todos os músicos vêm de algum lugar do mundo, com uma personalidade que influencia o mundo todo. Como a bossa nova de Tom Jobim. Eu venho de uma cidade que produz músicos que influenciaram o mundo todo. Quando criança, era Billy Strayhorn, que compôs a mais famosa canção de Duke Ellington, Take the A Train, e Lush Life, e muitas outras. Um grande baixista, Ray Brown, veio da minha cidade. E um grande baterista, Art Blakey, veio de Pittsburgh. Um grande pianista, Earl Wild. Um grande artista, Andy Warhol. Um famoso dançarino, Gene Kelly. Posso dar dezenas de nomes. Há famosos industriais. Sabe o catchup? É de Pittsburgh. Então, o que Miles Davis ouviu em mim foi isso: Pittsburgh. Todos são diferentes, mas todos têm seu próprio som. Ninguém toca como eu, e eu não toco como mais ninguém. Miles veio de Saint Louis, que produziu muitos músicos. Certas cidades produzem fenômenos, e isso foi o que Miles ouviu em mim, algo diferente.

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