Washington Alves/Estadão
Washington Alves/Estadão

Agora ex-Titãs, Paulo Miklos encara uma nova vida no cinema, TV e, claro, na música

Músico e ator prepara novo álbum de "música brasileira moderna, contemporânea, às vezes ardida", produzido por Pupillo

Pedro Antunes, O Estado de S. Paulo

24 Julho 2016 | 04h00

BELO HORIZONTE - Paulo Miklos está gripado. E não existe, com tal afirmação, qualquer prepotência de tentar emular inutilmente a excelência de Gay Talese ao perfilar de forma icônica o cantor Frank Sinatra sem entrevistá-lo, nem de um lado (do artista), nem do outro (reportagem), pelo contrário. A gripe é somente o primeiro assunto, de muitos, a ser tratado pelo músico e ator paulistano em sua primeira entrevista concedida após o anúncio da saída dos Titãs, banda integrada por ele nos últimos 34 anos – o tempo ao lado de Branco Mello, Sergio Britto e Tony Bellotto, remanescentes da formação mais clássica, é maior do que a idade da filha de Miklos, Manuela, que hoje tem 32 anos de idade. 

A voz está mais frágil, molhada por constantes goladas d’água, contudo. O pique, aos 57 anos bem vividos, não. Culpa da fragilidade, em partes, vem da quantidade de ar gelado de viagens de avião inalado nos últimos dias. Desde a semana anterior, na segunda-feira, dia 11, Miklos não integrava mais os Titãs. No dia anterior, fez seu último show com a banda e, na manhã seguinte, data do anúncio, viajava para Belém, no Pará, para uma diária no set de gravação da nova série de TV na qual ele participará chamada A Lei, do canal pago Space, com estreia prevista para o primeiro semestre de 2017. No dia seguinte, já estava em Belo Horizonte, cidade que recebe uma temporada da peça Chet Baker, Apenas um Sopro, no Centro Cultural Banco do Brasil. 

Ao descer do quarto onde mora temporariamente, em um hotel no bairro Savassi a poucos metros do teatro onde se apresentaria mais tarde naquele dia, Miklos exibe orgulhoso a camiseta de cor preta e o rosto de Baker, envelhecido, estampado nela. “Estou uniformizado com a minha nova banda”, brinca. 

“Estou para conhecer alguém com tanta disposição para trabalhar, dar entrevistas, fazer fotos”, elogia Renata Galvão, namorada dele e produtora executiva de Apenas um Sopro, enquanto o músico se dispõe a fazer novas poses diante das lentes do Estado. Miklos, de fato, não sossega. Brinca, faz piadas e conversa com fãs que o abordam na pacata. Há 15 anos, ele se descobriu como ator. Ou melhor, foi levado a acreditar que poderia atuar no filme O Invasor pelo diretor do longa, Beto Brant. Desde então, foram 13 trabalhos em televisão, sete filmes – inclusive os infantis Carrossel, o primeiro de 2015 e o segundo, ainda em cartaz, que o garantiu fama entre a criançada que o chama pelo nome do seu personagem, o maligno Gonzales. 

A experiência de reinterpretar o mesmo personagem, noite após noite, tem sido intensa para o paulistano. “Quando se passa por isso, percebem-se as nuances. Em algumas noites, o personagem é mais sombrio, em outras, mais irônico”, ele explica. Sua grande dificuldade em um espetáculo como esse, ele conta, é o silêncio dos espectadores. As três décadas de rock não o prepararam para isso. “É muito assustador”, ele garante. “Você não tem um instrumento como companhia, como uma guitarra. Você é o instrumento. E a canção é a história que deve ser contada”, analisa. 

A vida deu algumas bofetadas no rosto de Paulo Miklos nos últimos anos. Morreram mãe, esposa e pai, em sequência. Ele, nas cordas, contra-atacou com trabalho. Nesta semana, sua agenda se enche com os compromissos como jurado do reality show de competição musical The X-Factor Brasil, que estreará na Band em agosto. 

Passei por muitas perdas. Isso girou o meu universo”, ele conta. “Comecei a escrever muitas canções tristes, outras interessantes”, explica. Dessas músicas, algumas integrarão o terceiro disco solo do músico, cujo lançamento é previsto para novembro deste ano. A direção musical será assinada por Marcus Preto (cujos trabalhos recentes incluem discos da Gal Costa e Tom Zé) e produção do sempre fino Pupillo (baterista do Nação Zumbi). A banda escolhida para interpretar canções escritas em parcerias ou assinadas por novos autores será formada por Ana Karina Sebastião (baixo), Nana Rizinni (bateria), Luna França (teclados) e Mônica Agena (guitarra). “Quero que seja um disco de música brasileira moderna, contemporânea, às vezes ardida”, explica.

A decisão para a saída dos Titãs foi tomada há pouco mais de dois meses. Desde então, Miklos e banda se reuniram para fazer a mudança da forma mais suave possível. “Sempre conversamos muito. Tudo foi feito de forma muito sincera”, observa. “Não sinto que é o fim de uma era. Podemos ficar distantes no dia a dia, mas continuamos dividindo uma mesma história.” Na noite anterior ao anúncio, Paulo se disse “sereno”. E, embora não tenha ainda tempo de digerir a mudança no rumo da vida, ele, afinal, não parou em São Paulo desde então, e não se assusta com a ausência de compromissos com a banda. “A minha vida tem sido assim nos últimos 15 anos, com música, cinema e televisão”, brinca. Paulo Miklos está gripado, mas não está nem aí. “Agora, posso ter mais umas 13 bandas e fazer uns 14 filmes.” 

* O REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DA PRODUÇÃO DO ESPETÁCULO

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