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Eduardo Suplicy, Helô Pinheiro e Demônios da Garoa: todos estão presos a uma canção pelo resto da vida

Gilberto Amendola, de O Jornal da Tarde,

12 de outubro de 2009 | 22h30

                                                                                                                    Werther Santana/AE

O administrador de empresas Saint-Claire Cavenaghi tem 536 versões de 'St. Louis Blues'

 

Seria a mais cruel das perseguições se o alvo dos ‘ataques’ não fosse quem é: o senador Eduardo Suplicy (PT). Desde que, há cinco anos, ele começou a aparecer em público entoando a clássica canção de Bob Dylan, Blowin’ in The Wind, com seu pomposo barítono e em um andamento lento que pode ser chamado de andante moderato, Suplicy virou alvo, ou melhor, antena parabólica para captar tudo o que é versão da música regravada à exaustão por artistas no mundo todo. Se um amigo descobre uma regravação em reggae, country ou blues, esteja onde estiver, lhe manda em arquivo digital, fitas, CDs. E Suplicy, que já poderia ter amaldiçoado a canção por sua insistência em persegui-lo, agradece. "Não sou colecionador, mas recebo muitas versões da música por e-mail. Recebo também os links com vídeos no You Tube. Tem coisas incríveis", diz o político, sem a conta de quantas Blowin já ouviu.

 

Ouça:

som "Garota de Ipanema", por Piero Pelù

som "Garota de Ipanema", por Mexico Jazz Band

som "Garota de Ipanema", por Mirko Labinero

 

Suplicy pertence a um time raro e seleto de gente que, pelos mais variados motivos, passou a receber e a guardar centenas de versões de uma única música. Elas chegam por amigos, são arquivadas pelo próprio colecionador ou simplesmente ‘aparecem’, despertadas pelo memória afetiva de fãs que acabam desempenhando a função de garimpeiros.

 

Helô Pinheiro responde pelo caso mais clássico de associação entre música e personalidade. Desde 1962, ano em que se tornou a Garota de Ipanema da canção, quando Tom Jobim e Vinícius de Moraes a viram passar a caminho do mar enquanto tomavam umas e outras no bar Veloso, no Rio de Janeiro, Helô não fica um dia sem ouvir uma estrofe, um verso ou um acorde de Garota de Ipanema. "Sempre que eu estou na rua alguém canta pra mim", diz.

 

Em seu apartamento, Helô tem algo em torno de 500 versões daquela que é considerada a música brasileira mais regravada da história (um número que, hoje, tornou-se incalculável). "Eu recebo várias Garotas de Ipanema dos fãs. Tenho um fã do Ceará que me manda, regularmente, um CD com várias regravações da música. Tem Garota de Ipanema em japonês, em finlandês e em idiomas que nem é possível entender", fala. "Eu mesma ainda não tive tempo de ouvir todas as versões que me mandam. Um dia quero organizá-las direitinho", diz.

 

Já o administrador de empresas Saint-Claire Cavenaghi, 56 anos, tomou o caminho inverso e escolheu uma canção para acompanhá-lo por toda a vida: St. Louis Blues, composta por William Christopher Handy em 1914, considerado o primeiro blues a ir parar em uma partitura.

 

Cavenaghi não perde as contas de sua preciosidade. "Tenho 536 versões desta música." Sua coleção começou há 40 anos, quando ele assistiu ao filme Música e Lágrimas, dirigido em 1953 por Anthony Mann, sobre a vida do músico Glenn Miller (1904-1944).

 

"No filme, a música aparecia como uma marcha militar. Fiquei impressionado com aquilo. Fui atrás para comprar um disco com a canção e descobri que, originalmente, ela se tratava de um blues. Gostei mais ainda. Virei um colecionador do tipo que grava programação de rádio só para ter o registro de quando ela entra na programação," diz Cavenaghi.

 

Cavenaghi conta que já fez longas viagens de carro só com versões de St. Louis Blues rolando no toca-fitas. "E no meio da viagem um amigo disse: ‘Poxa, acho que já ouvi essa música’. Daí, eu respondi: ‘Nada disso. Você só ouviu essa música’". A fita só tinha versões de St. Louis Blues.

 

Cavenaghi tem versões de St. Louis Blues em alemão, em ritmo de tango argentino e até em gravações com artistas brasileiros, como uma com o pianista Eumir Deodato. "Claro que ainda tem coisas de que eu estou atrás. Vivo procurando novas versões. Nenhuma outra música seria capaz de me fazer virar um colecionador como esta fez."

 

Outra parceria fadada à eternidade é a dos Demônios da Garoa com um clássico de Adoniran Barbosa (1910-1982), o Trem das Onze. "O grupo tem muitas músicas de sucesso, como Saudosa Maloca, mas Trem das Onze é imbatível", diz o empresário dos Demônios, Odilon Mario Cardoso. Tamanha identificação com a canção tem um efeito prático. "Sempre recebemos versões do Trem das Onze de todo o mundo. Não sei quantas, são centenas", diz.

 

Cardoso fala que já ouviu versões em japonês, italiano e até em português de Portugal. "Em italiano, a música se chama Filho Único. Em Portugal é engraçado, o sotaque faz a música ficar diferente. Em japonês... Bom, em japonês não dá pra entender nada", brinca Cardoso. "Mas não tem jeito. A melhor versão é a do próprio Adoniran. Imbatível."

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