Daniel Chiacos
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Agnes Nunes celebra grandes cantoras negras em nova série no YouTube

Em 'Abre Alas', que estreia hoje (16), cantora troca experiências com nomes de peso da música brasileira, como Elza Soares e Margareth Menezes

Ana Lourenço, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2021 | 08h00

Honra e aprendizado. É assim que a cantora Agnes Nunes, de 19 anos, resume o significado da sua participação na nova produção do YouTube Originals, Abre Alas, que estreia nesta quinta, 16, no canal da artista. A série com seis episódios criada pela Hysteria (plataforma de conteúdo produzida por mulheres), mostra o encontro da jovem com nomes consagrados da música brasileira que foram e continuam sendo suas inspirações.

"Quando recebi o convite, fiquei super surpresa e um pouco com medo, porque eu pensei 'sou tão jovem, como é que eu vou guiar um programa desses? Como eu vou ser anfitriã dessas mulheres tão maravilhosas?'", conta. 

Elza Soares, Sandra de Sá, Preta Gil, Liniker, Tássia Reis e Margareth Menezes. Em cada um dos episódios, cada uma delas compartilha com Agnes sua experiência de vida e carreira, além de cantarem juntas. A ideia é fazer uma reflexão sobre o passado e o presente das mulheres negras na música produzida no País. A equipe que trabalha na produção é composta por integrantes majoritariamente mulher e negras.

“Fazer o Abre Alas, mais do que falar sobre mulheres pretas e como o mundo recebe esses talentos, é um encontro com a ancestralidade. Estar cercada de mulheres pretas, com todas trabalhando pelo mesmo objetivo, é reconhecer todas as que vieram antes de nós. Cada cantora que relata uma fase de sua vida conecta a gente com tradições, percalços, dores e delícias das mulheres de nossas famílias. E ouvir as mulheres mais novas é um alívio por saber que tudo o que fizemos, fazemos e faremos vai abrir caminhos menos difíceis e encorajá-las para lidar e reagir às micro agressões racistas disfarçadas de mudança de mundo”, revela Maristela Mattos, diretora e roteirista da “docussérie”.

O projeto faz parte do Fundo Vozes Negras do YouTube, que desde junho de 2020 investe em valorizar e ampliar vozes e perspectivas negras na rede social. “Ver aquela equipe me deixou muito mais confiante e muito mais à vontade. Você percebe que a mulher negra vem ocupando espaços que, há 4, 5 anos atrás não era visto pela sociedade como o normal”, reflete Agnes. 

A parceria da equipe é o coração da série. De acordo com Maristela, tudo foi pensado e conversado. "Faz parte desse projeto derrubar o padrão da hierarquia vertical e colocar todos juntos com ideias, pensamentos e palavras lado a lado. Isso faz com que toda a troca, antes, durante e depois, gere uma entrega única de toda a equipe”, conta Maristela. “A participação da Agnes foi essencial na escolha das histórias que iríamos contar, nas mulheres que são referência para ela. Ela é mais do que uma porta voz, ela dá a voz ao projeto e solta a voz em encontros musicais inéditos. Agnes mostra que apesar de jovem, sua voz e talento são maduros."

Do sertão para o estrelato

Agnes Nunes é um talentos mais relevantes de sua geração. Sua história inspiradora mostra que o sonho é possível. “Eu morava numa cidade em que a expectativa de você sair e virar artista era muito mínima. Uma cidadezinha do interior, do sertão da Paraíba. E a minha expectativa era crescer, estudar e casar”, lembra ela, que viu a vida mudar aos 12 anos, quando ganhou um teclado de sua mãe. “Ela me apresentou a música e aí eu comecei a gravar os meus vídeos e as minhas coisas e postar na internet. Meu primeiro vídeo foi escondido dela porque era uma exposição muito grande, né? Mas quando eu vi tinham muitas pessoas ali apreciando a minha arte”, conta.

Hoje, a cantora conta com 2,6 milhões de fãs no Instagram e singles e parcerias gravados com nomes como Xamã e Tiago Iorc. Sua voz, inconfundível, casa bem com qualquer ritmo. “Eu não me limito. Eu canto o que meu coração pede pra eu cantar, eu só canto, só faço música”, garante.

Justamente por esse jeito decidido, a jovem já arrancou elogios de Caetano Veloso, Lázaro Ramos e Elza Soares. “Foi com ela que eu fiquei mais nervosa. Elza faz parte da minha vida desde que eu me entendo por gente e faz parte da vida da minha mãe desde que ela se entende por gente. Então pra mim ela é uma referência bem grande. Foi muito intenso, eu fiquei muito emocionada porque ela é muito inspiradora. Só o fato dela existir já é um acontecimento”, diz.

A inspiração não surge, segundo Agnes, somente na música, mas sim na vida. “Eu pude ouvir a história de cada uma dessas mulheres, sair um pouco do mundo da música. Teve artista que eu conhecia só a música, que eu nunca tinha parado pra escutar a sua história e cada uma dessas mulheres tem uma particularidade na história. E com cada uma delas eu aprendi uma coisa diferente, com cada uma eu fui sensível de uma maneira diferente." 

Ela diz que, durante o processo de fama, enfrentou episódios de racismo, bullying e xenofobia. “Foi um processo que eu tive que amadurecer muito mais rápido, de olhar a vida e a perspectiva da vida com outros olhos.”

De acordo com Maristela, o lançamento de Abre Alas vem como uma mostra de resistência, coragem e amor. “Depois de quase dois anos pandêmicos, uma série musical sobre histórias de vida e resistência ajudam a despertar mais esperança. Todo mundo está  precisando reaprender a olhar o futuro com mais inspiração e renovar compromissos com os sonhos. A série vem celebrar um ano em que nada aconteceu de forma simples e fácil. Mesmo assim conseguimos enxergar belezas na vida”, coloca a roteirista.

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