AfroReggae lança CD e abre Rolling Stones

O AfroReggae chega à adolescência como gente grande. O grupo de Vigário Geral, criado em reação à chacina ocorrida naquela favela em 1993, comemora 13 anos com uma agenda farta. Seu segundo CD, Nenhum Motivo Explica a Guerra, chega às lojas na segunda-feira e, na terça, eles fazem um show no Quartel General da Polícia Militar do Estado do Rio, com a banda de jazz 190, formada por soldados da corporação. Depois, vão para São Paulo divulgar seu disco e voltam no início do mês que vem, para comemorar o aniversário com 13 dias de festa. ?Começa com show nos Arcos da Lapa e vai até a abertura dos Rolling Stones em Copacabana, no dia 18 de fevereiro?, avisa o cantor Anderson. Por causa dele, o grupo pode ganhar um Oscar. O filme Favela Rising, de Jeff Zimbalista e Matt Mochary, que costura a história do AfroReggae com a vida de Anderson, está entre os 15 documentários pré-selecionados. Já levou os prêmios no Festival de Tribeca (em Nova York)e da Associação Internacional de Documentários. ?Se a gente chegar lá, vamos de boné e nossas roupas mais bonitas que o smoking que todo mundo usa?, brinca o também vocalista LG. Os meninos que se uniram em torno de José Júnior, organizador de bailes de funk e reggae, para aliviar o terror de verem vizinhos morrerem nas mãos de policiais exterminadores, hoje são homens feitos e isso se reflete na música. Nenhum Motivo Explica a Guerra é mais melodioso que o CD anterior, Nova Cara, lançado em 2001, pouco antes de eles abrirem o Rock in Rio 3. ?A gente era mais impulsivo, queria tudo de uma vez. Agora vamos com mais tranqüilidade. A música reflete também nosso crescimento e amadurecimento?, explica Altair, que assinou a ficha número 1 do AfroReggae e, por isso, se sente responsável pela geração que cresce influenciada por eles. ?Temos de trazer a galera, mostrar que assim como nós, eles também podem melhorar suas vidas, mesmo que os governos não nos dêem condições. Aliás, o grupo surgiu quando nos cansamos de reclamar do governo e partimos para a ação. Hoje temos parcerias com o poder público e a iniciativa privada, mas ainda há muito por fazer.? Eles já fizeram bastante. Além dos 13 grupos artísticos em torno do AfroReggae, eles têm 61 projetos sociais espalhados pelo Rio, atendem milhares de pessoas, da primeira infância à terceira idade. O grupo de show é só uma das pontas de um iceberg com muitas direções, mas com objetivos precisos: quebrar as barreiras entre grupos antagônicos, facções ou gangues em favelas e entre estes e a polícia. O projeto Polícia Mineira, que junta soldados da PM de Minas com as comunidades de Belo Horizonte (lá chamadas de aglomerações) é um exemplo. Não foram os únicos nessa aposta. Os ex-Titãs Arnaldo Antunes e Nando Reis, o produtor Liminha, o franco-espanhol Mano Chao e o produtor Chico Neves (de Lenine e O Rappa) contribuíram para o disco, que tem protesto contra a precária situação da população brasileira (como a faixa-título e Mais Uma Chance, ou Haiti, de Caetano e Gilberto Gil, que virou reggae), mas há também a crônica das comunidades, como Benedito e Coisa de Negão. E ainda faixas românticas, como Quero só Você e A Aquarela Dela. As letras podem ter um ou dois autores (inclusive de José Júnior), mas as melodias são sempre assinadas em grupo. ?A gente sempre trabalhou assim, todo mundo junto, num consenso?, explica o percussionista Dada. Por isso, o disco tem o ritmo poderoso, que sacode quem ouve. É a marca do AfroReggae, impressa até na versão de Imagine, de John Lennon, que eles gravaram (a convite de Yoko Ono) num disco da Anistia Internacional. ?Ficou com nossa batucada e vai estar nos shows que faremos para lançar o disco novo?, promete Dadá.

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