AfroReggae comemora dez anos de música e cidadania

A comemoração dos dez anos do AfroReggaevai tomar o Rio de Janeiro. De terça-feira, dia 21, até asegunda-feira, dia 27, eles estarão no centro (Teatro JoãoCaetano e Arcos da Lapa) e na zona norte (Sesc Tijuca e bairroSantíssimo), em debates, entrega de prêmios, vídeos e shows, coma participação de Caetano Veloso e Regina Casé (padrinhos do grupo), Lenine, MV Bill e outros amigos famosos, como o novo secretárioNacional do Livro, Waly Salomão. Este, por sinal, foi o primeiroa ver nos meninos um vento renovador para a música brasileira epara o trabalho social que a usa como ferramenta. A década deexistência lhes deu objetividade, mas manteve a inquietação.Hoje o AfroReggae é um grupo musical de sucesso, comshows lotados no Brasil e no exterior, e também uma organizaçãonão governamental com braços em quatro bairros carentes do Rio(Vigário Geral, Parada de Lucas, Cidade de Deus, na zona norte,e Cantagalo, na zona sul). Atende entre 400 e 500 pessoas, decrianças a idosos, e é referência em trabalho social. Tem apoios, entre outros, da Fundação Ford, do Banco Nacional deDesenvolvimento Econômico e Social e da prefeitura do Rio (aparceira mais antiga), mas Júnior considera a mudança dementalidade, dos meninos e da sociedade, a maior vitória dogrupo."O AfroReggae rompeu barreiras e preconceitos e hoje osmoradores de Vigário Geral têm orgulho de seu bairro. O faveladoe o negro são menos marginalizados e formamos nossas platéias",comemora Júnior, que é chamado, no Brasil e no exterior, paradar a receita do sucesso. Ele conclui o livro Da Favela para oMundo, sobre a experiência, mas garante que não há um modelo aseguir. "Aprendemos e quebramos a cara à medida que acontecia.Nem sei se esse modelo funcionaria em outras comunidades oucidades do País."A história do AfroReggae é a luta da tenacidade contra aviolência. Júnior promovia bailes funks, em 1993, quando aPrefeitura do Rio os proibiu. Então, ele criou um jornal sobre acultura negra (funk, reggae, hip hop e derivados) e encontroualmas gêmeas, fora da mídia institucional. Na mesma época, apolícia invadiu Vigário Geral e matou vários trabalhadores.Mobilizado, Júnior juntou um grupo de amigos e todos foram àluta no resgate dos meninos do bairro, pela música que elesgostavam e entendiam."No início, havia quatro vezes mais gente para aprenderque instrumentos para tocar e a gente ainda se desviava dostiros da polícia, que nos confundia com traficantes. Aos poucos,ganhamos respeito de todos os lados", conta Altair, de 22 anos,diretor de percussão do AfroReggae, seu ex-diretor financeiro ehoje mais dedicado aos shows, em que toca repinique. "Mas nãodeixo o trabalho social porque me sinto responsável pelacomunidade. A gente conseguiu muita coisa, mas falta muito aindapor fazer."Entre as conquistas, estão a criação de sete gruposartístico-musicais (além do AfroReggae, Makala, Afrolata,AfroSamba, AfroMangue, Tribo Negra, Coral de Idosos e Levantandoa Lona, escola circense que funciona num anfiteatro que elesconstruíram no Cantagalo), a continuidade do trabalho ereconhecimento de seu valor artístico. Nem só Caetano e ReginaCasé falam bem deles. Profissionais, como Luana Piovani,contratam seus artistas e até a Rede Globo encampou suamensagem. A partir de domingo, passa a veicular dois anúncioscriados pela Conspiração Filmes para divulgar os lemas dogrupo.Mas ninguém pensa que a missão está cumprida. Anderson,de 24 anos, diretor do Centro Cultural do AfroReggae em VigárioGeral, lembra que é preciso oferecer mais oportunidades aosmilhares de adolescentes atraídos pelo tráfico de drogas."Nunca houve atritos, até porque cada garoto que vem para onosso lado tem outros dez para substituí-los", conta ele. "Épor isso que a gente não abandona o lado social, mesmo sendomais fácil viver só de música."Para Júnior essa continuidade é a alma do AfroReggae."Normalmente, ao completar 18 anos, quando o garoto está maisapto a contribuir, é expelido pelo projeto porque passou daidade. Nós mantemos essas pessoas conosco", ensina. Mas asnormas são rígidas. No AfroReggae, todos fazem tudo, gostando ounão. As drogas, mesmo as legais (álcool e tabaco) são proibidas."Também não participamos de eventos que levem esses produtos notítulo. Isso nos tira de muitos festivais que nos dariam renda,mas não abrimos mão desse princípio."Mesmo assim, o AfroReggae deu certo financeiramente. Ogrupo gasta R$ 72 mil por mês e arrecada R$ 24 mil, com shows,venda de camisetas e serviços e outras atividades. O restantevem de contribuições privadas e públicas."Em cinco anos, esperamos cobrir 50% das despesas e, emuma década, chegar à auto-suficiência", promete Júnior. "Nossameta é crescer e influenciar as políticas públicas. Começamoscomo caricatura do Olodum e hoje trouxemos os jovens das favelaspara a própria cultura e eles se orgulham dela."

Agencia Estado,

16 de janeiro de 2003 | 16h31

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