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Afro Cumbia All Stars ganha o mundo nos moldes da velha guarda

Banda foi uma das atrações do Porto Musical deste ano

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

20 de fevereiro de 2015 | 19h03

Eles foram apresentados com algum ruído de informação pela voz que saiu do alto-falante da Praça do Arsenal. A ideia era resenhar a próxima atração como “um grupo que mistura elementos da música andina ao rock psicodélico”, dizia a moça, deixando passar apenas de raspão a palavra “cumbia”. Poderia ter havido mais economia e precisão se tudo fosse reduzido a esse termo. Cumbia. Nada que os peruanos do Afro Cumbia All Stars levaram em sua passagem pelo Porto Musical, no Recife, pode ter mais força.

Os oito integrantes foram reunidos para um projeto que lembra o Buena Vista Social Club. Não são tão velhos quanto os cubanos Compay Segundo ou Rubem Gonzales - ambos, já mortos, estavam na casa dos 90 quando ganharam visibilidade no início dos anos 2000. Mas estavam de certa forma retirados de cena e já contavam com larga experiência na música peruana. O conceito saiu da cabeça do francês Lionel Igersheim, 30 anos, que se apaixonou pela cultura andina desde que se apaixonou pela província de Oxapampa, ao lado da selva amazônica. Ele estudou os ritmos latinos e criou dois projetos interligados, o festival Selvamonos e o Afro Cumbia. Quando vislumbrou o Peru como o centro de seu mundo musical, saiu atrás do elenco que queria e o laboratório confirmou-se na prática. A estonteante energia dos peruanos, apresentada no Brasil pela primeira vez, é algo que o mundo está conhecendo.


A cumbia original, reconhecem os próprios peruanos, é a colombiana. “Há também a venezuelana”, diz o vocalista do grupo, o sorridente Lucho Carrillo. Já nas mãos dos peruanos, ela ganhou o que chamam de “sabor”. “A cumbia original é mais lenta. O que fizemos foi dar mais estilo, mais sabor.” As semelhanças ideológicas com o Buena Vista também são assumidas. “Somos como o Buena Vista Social Club e tomamos eles como um exemplo. As novas gerações devem se dar conta de que não há idade para se amar música. E música não é algo improvisado, mas algo nascido.”

Carrillo fez história à frente do grupo Los Diablos Rojos. Quando falou com o Estado, ainda estava embriagado da energia que havia recebido no show da noite anterior. A reação dos brasileiros, que descobriam ali a sonoridade binária da cumbia dos peruanos, o deixou bastante emocionado. “Eu ainda não estou acreditando no que houve ontem. As pessoas dançavam enlouquecidas. As mulheres estavam quase de cabeça para baixo. Meu coração está inchado de alegria”. A euforia o levou à memória de outra apresentação, feita há quase dois anos no Marrocos. “Você sabe que as pessoas de lá, por sua crença religiosa, tinham tudo para não gostar de nossa música. Bem, isso nos preocupou.” Os músicos passaram o som e nada de o público aparecer. Duas horas antes, a praça continuava vazia. “Fomos comer, voltamos e a praça começou a encher de repente. Pois começamos a tocar assim e, em minutos, o lugar ficou lotado. Nunca vi nada como aquilo. Você acredita que as mulheres levantavam as saias para dançar?”, recorda.

O grupo segue pelo mundo. Já se apresentou em 25 festivais e em países como França, Bélgica, Holanda, Inglaterra e Suiça. Ao Brasil, pensam em voltar para shows em São Paulo. O disco que tem em mãos é Tigres en Fuga, lançado no ano passado e com a mesma sonoridade que os pernambucanos puderam sentir. A cumbia é forte, aparece bem marcada pela percussão afro-latina de timbales e pelo contrabaixo elétrico. Eles trabalham ainda com duas guitarras elétricas e bateria, ao contrário das correntes orquestrais que, conta Carrillo, tomaram o mercado peruano de uns anos para cá. “Todos fazem cumbia orquestrada por lá. Nenhum grupo faz o corte que fazemos”. Para encontrar mais sabor, Carrillo diz que recorre à guaracha cubana, algo que só os aproxima ainda mais dos históricos Buena Vista Social Club.

Buena Vista Social Club se apresenta em São Paulo no dia 15 de maio

A resistência seguiu até não poder mais. Há 20 anos, eles estavam isolados em Cuba, por mais respeito que seus públicos oferecessem. Guardavam ouro em baús de madeira. Até que, no início dos anos 2000, um filme de Wim Wenders, de 1999, com a direção musical do guitarrista Ry Cooder, fez a música do grupo voar pelos ares da Europa, do Japão e do Brasil. Agora, seus remanescentes se despedem. A festa está prestes a acabar.

De todos os grandes, sobraram três. O trompetista Guajiro Mirabal, a cantora Omara Portuondo e o ágil alaudista Barbarito Torres. Dirigidos pelo trombonista Jesus Ramos, eles e orquestra (formada por músicos mais jovens) estão na estrada para a temporada que estão chamando de Adiós Tour. A despedida passa pelo Brasil em maio, nos dias 15 (no Teatro Vivo Rio) e 16 (em São Paulo, no HSBC Brasil).


Apesar da presença sempre marcante de Omara, uma visitante assídua dos palcos brasileiros, produzida em shows e discos pelo violonista Swami Jr, a falta que fazem sobretudo Compay Segundo, Rubem Gonzales e Ibrahim Ferrer (todos mortos) é devastadora. E mesmo o santiaguero Eliades Ochoa, da porção oriental da Ilha, da trova e do changuí, não está nesta jornada.

Usar o nome do grupo, mesmo com menos de 60% dele no palco, é algo do qual os produtores não se cansam. O repertório será dos boleros e son clássicos, e, contudo, Omara é uma apresentação à parte, assim como o alaudista Barbarito Torres.

Uma nova geração de músicos cubanos vem sendo produzida desde que o Buena Vista atraiu as atenções para a Ilha. Nada nas mesmas dimensões acontecia desde os anos 80, quando surgiu para o jazz a geração dos pianistas Chucho Valdéz, Gonzalo Rubalcaba, do trompetista Arturo Sandoval e do saxofonista Paquito D’Rivera. Sem mais a velha guarda romântica, Havana já exporta os pianistas Roberto Fonseca e Yaniel Matos. 

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