Adriana Calcanhotto 'Maré', com poemas de Waly Salomão

Cantora e compositora gaúcha lança novo álbum com composições de Torquato Neto e outros

Roberta Pennafort,

16 Abril 2008 | 17h19

Em 2009, a gaúcha Adriana Calcanhotto faz 20 anos de Rio de Janeiro. Uma das razões que a levaram a se radicar na cidade? O mar. As mesmas águas que coloriram Maritmo, de 1998, tonalizam, agora, Maré (Sony BMG), seu novo CD - o segundo de uma trilogia com "ambiência marítima" (o terceiro não se sabe quando virá). Apesar de ambos terem composições de autores como Waly Salomão, Dorival Caymmi, Péricles Cavalcanti, Antonio Cicero e do trio Dé Palmeira, Bebel Gilberto e Cazuza, são discos bem diferentes, ela acredita. "Em relação a Maritmo, esse é mais do fundo do que da beira", diz.   Veja também:  Ouça trecho de 'Porto Alegre' de Adriana Calcanhoto    A densidade a que Adriana se refere não está só em músicas como Teu Nome Mais Secreto, última parceria dela com Waly, e Sem Saída, texto do concretista Augusto de Campos que Cid Campos, seu filho, transformou em canção - sim, mais uma vez, Adriana mergulha fundo na poesia. Traduz-se, também, aponta ela, no caráter enxuto (são só 11 faixas) e na pequena quantidade de gente no estúdio: são recorrentes os cellos de Moreno Veloso, as guitarras de Kassin, a bateria de Domenico Lancellotti, o baixo de Dé Palmeira. O produtor é Arto Lindsay. "Maré é todo mais condensado, menos espraiado para as colaborações", explica Adriana.   Seu mar não tem só águas turvas. Tudo começa na maior calmaria, com a faixa-título (dela e de Moreno), embalada por violões bossa-novistas. Na letra - escrita especialmente para ser uma apresentação do CD -, ela diz, literalmente, a que veio: "Mais uma vez/ vem o mar se dar/ como imagem/ passagem/ do árido à miragem." Em seguida, vem outro tema na mesma linha, Seu Pensamento, feita com Dé Palmeira em 2003. São duas das seis inéditas do CD.   A cantora, no entanto, avisa: "As pessoas pensam que são águas plácidas porque o disco é, aparentemente, mais acústico do que eletrônico, mas essa visão é superficial." As ondas mais altas começam a aparecer no tango Três, letra de Antonio Cicero e música de Marina Lima, que já havia sido gravada pela própria e vem sendo cantada em shows por Ana Carolina, em versão mais "afetada".   Péricles Cavalcanti, nome recorrente nos discos de Adriana, aparece na divertida Porto Alegre, que fala do mito grego de Calipso, ninfa do mar, e tem auxílio luxuoso de Marisa Monte e seu canto de sereia. Outra participação especial é a de Gilberto Gil, que empresta seu violão a Sargaço Mar, o Caymmi de Maré - em Maritmo, o compositor estava em Quem Vem pra Beira do Mar, dividindo os vocais com Adriana.   Maré tem ainda Onde Andarás, música de Caetano Veloso para poema de Ferreira Gullar, já gravada pelo baiano, por Maria Bethânia e por Marisa Monte. E Torquato Neto, musicado por Kassin, resultando na singela Um Dia Desses. Há quem veja resquícios de Partimpim nesta faixa. Adriana, que se viu tragada pela estrondosa popularidade do heterônimo e há muito queria despir-se dele, não vê. "Musicalmente, pode ter parentesco com Partimpim. Mas o poema, não."   Ao contrário de Maritmo, alavancado pelo sucesso Vambora, Maré não tem um grande hit. Composição da década de 80, Mulher Sem razão, de Dé, Bebel e Cazuza (de quem ela já havia gravado Mais Feliz, em Maritmo), foi a escolhida para tocar nas rádios. A turnê de lançamento começa no exterior. Em junho, ela passa a se apresentar no Brasil. E apenas no fim do ano Adriana volta ao Rio. "Eu viajo tanto com o trabalho... Tenho sentido mais falta do Rio. Quando eu volto, falo: ‘ah, cheguei!’", sorri, logo depois de dizer que sempre se sentiu "de lugar nenhum". O cheiro de maresia, que ela adora, e que invadiu as gravações de Maré (o estúdio era na Barra da Tijuca), vai ficar para depois.

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