Adnet interpreta Villa-Lobos em "Coração Popular"

Sabe-se, mas raramente se ouve - em forma de música; em forma de teoria e discurso, ouve-se até demais -, que Villa-Lobos tinha um coração popular, alma chorona a olhar para o Brasil dos índios, dos negros, dos caboclos, alma sensível aos choros, às valsas de esquina, às modinhas desesperadas. Supre-nos a falta, oferece-nos aos ouvidos, o violonista e arranjador Mário Adnet, que acaba de lançar, de forma independente, o CD Coração Popular.É um disco raro, brilhante, porque faz o que não foi feito antes: as canções de Villa-Lobos perdem sua clareza, beleza sentimental suburbana, seu tom de sentimentos puros, amores incontroláveis quando interpretadas, como quase sempre são, por aquelas vozes treinadas nas escolas italiana (principalmente) e alemã do canto erudito.Adnet tratou as canções de Villa como, provavelmente, Villa gostaria de as ouvir. Reuniu um time de músicos de primeira grandeza - o violonista (eventualmente de sete cordas) Rodrigo Campello, o contrabaixista Zeca Assumpção, o acordeonista Marcos Nimrichter, o genial clarinetista Paulo Sérgio Santos (o maior clarinetista da música brasileira), o violoncelista Hugo Pileger - e assim por diante; juntou-se, ele que tem voz pequena (e expressiva, expressiva) a Zé Renato, Cláudio Nucci, Guinga, Muiza Adnet. Deu num dos discos mais belos dos últimos tempos.O lançamento é da Indie Records, com distribuição da Universal. A produção teve apoio da prefeitura do Rio. Se você tiver dificuldade em encontrar o CD, fale com Mário Adnet pelo e-mail adnet@skydome.net. Você nunca ouviu Melodia Sentimental, Estrela É Lua Nova, Redondinlha, Realejo, Modinha, Canção de Amor como neste disco maravilhoso.A propósito, Adnet está lançando, ao mesmo tempo, pela mesma gravadora, o segundo volume de Para Gershwin e Jobim. Aqui ele busca os paralelos, os pontos de contato, os encontros, as dessemelhanças entre os dois autores - dois dos maiores compositores da música popular universal. Funde-os: como observa Ruy Castro, no texto de apresentação, But not for Me ganha - porque está em sua suma - um sotaque de bossa nova, enquanto o choro e o ragtime misturam-se em Bate-Boca, música que Tom compôs antes de morrer e que ia ganhar letra de Chico Buarque. Chico chegou a dar o título. Com a morte do maestro, desistiu de continuar a letra. O MPB-4 e o Quarteto em Cy gravaram Bate-Boca, solfejando a melodia.A idéa de unir os dois músicos está, também, no disco Paulo Moura Visita Gershwin & Jobim, um lançamento da Pau Brasil com patrocínio do Sesc São Paulo. O disco foi gravado ao vivo, em julho de 1998, no Sesc Vila Mariana. A abordagem de Paulo Moura é, por definição, mais jazzística do que a de Mário Adnet. Ainda que a história do clarinetista e saxofonista esteja tão intimamente ligada à música brasileira, à gafieira, aos encantos de Pixinguinha, ele prefere aproximar Jobim de Gerswin do que Gershwin de Jobim.Mas isso não é nada óbvio. Basta ver quem toca com Paulo: o violinista Jerzy Milewsky, o pianista e vibrafonista Jota Moraes, o pianista e tecladista Cliff Kornan, o guitarrista e violonista Nelson Faria, o contrabaixista Rodolfo Stroeter e o baterista Pascoal Meireles.Exercício curioso será o de comparar os dois discos. Assim como sempre se soube do coração popular de Villa, sempre se soube da proximidade de Jobim e Gershwin. De evidenciar a primeira questão, cuidou Adnet. Da segunda, Adnet e Paulo Moura. Quem será mais claro em suas explicações?

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