Matt Sayles | AP
Matt Sayles | AP

Adele escorrega no pop do novo disco, mas alma dolorida a salva do fracasso

25, terceiro álbum da cantora britânica, chega às lojas de todo o mundo nesta sexta-feira, 20

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2015 | 10h00

A vida de Adele, enfim, “aconteceu”. Foi o que a cantora britânica de 27 anos escreveu em uma carta publicada para justificar a demora em lançar um sucessor para o poderoso 21, nas prateleiras e integrante nas paradas de mais vendidos desde 2011. Casou-se, teve um filho, viveu um período iluminado impensável para qualquer um que tenha ouvido canções como Rolling in the Deep, One and Only, Set Fire to the Rain, Someone Like You, entre tantas baladas angustiantes daquele trabalho.

Quatro anos depois de ganhar fama através daquele sofrimento trazido à tona com uma das vozes mais poderosas ouvidas neste século, chegou o momento de entregar mais uma leva de músicas. Qualquer um minimamente conhecedor da cultura pop sabe a expectativa gerada sobre este trabalho. Enfim, nesta sexta-feira, 20, chega 25.

O Estado já ouviu o disco e a reação é dividida. Após pelo menos dois anos de construção, 25 soa esquizofrênico. Cérebro demais, coração de menos. Percebe-se uma tentativa de reinventar a fórmula que levou Adele ao estrelato. 25 é mais pop que o antecessor. E é ali, mesmo, que escorrega, patina, desliza sobre um lago coberto por gelo quebradiço. É a alma dolorida de Adele – ou o fato de ainda saber emular aquele sofrimento do término do disco anterior – que resgata a britânica de um desastre fonográfico.

Não é a toa que Hello e When We Where Young foram escolhidos como os primeiros singles de 25. São as canções mais seguras do álbum. 25 soa como um excessivo trabalho de “pensar fora da caixinha”. Como se ela e um numeroso time de produtores, arranjadores e, claro, homens de negócios, tivessem passado tempo demais em reuniões para tentar fazer esse punhado de canções contemporâneas, modernosas. Quiseram olhar para frente, mas esqueceram do passado.

25 foi gravado em diferentes estúdios. Passou por Los Angeles, Estocolmo, Londres, Nova York, Praga e Burbank. Algumas das canções ainda foram gravadas em dois estúdios, arranjadas em outros pontos ao redor do globo, mixadas e masterizadas por mais um time de profissionais.

Adele faz o que sabe de melhor quando é voz dela a responsável por se encarregar das emoções. Mas há vozes demais. Backing vocals, gravados pela própria, de acordo com a ficha técnica, escondem a potencia que é Adele ao microfone. Arranjos de cordas, bateria eletrônica, órgão, tudo enche 25 de pompa e esvaziam o sentimento dela - o mais importante disso tudo, no fim das contas.

Perdeu-se, em alguns momentos, a assinatura própria. All I Ask, a 10ª do disco, uma balada com dois pianos e a voz da britânica, soa como um pop radiofônico, por mais que a cantora se esforce para chegar a agudos impressionantes. Basta checar a ficha técnica da faixa e a resposta está lá. Bruno Mars assina a letra, ao lado da própria Adele, Philip Lawrence e Christopher Brody Brown. Eis uma grande canção que iria estourar na voz do cantor havaiano. E talvez o faça, em um próximo disco dele. Para Adele, é muito esforço para soar pop demais.

A inovação é importante, entenda isso. Se 25 fosse mais do mesmo, talvez fosse massacrado justamente pela falta de criatividade. A grande questão é: o mundo já estava satisfeito com aquela porção da Adele mostrada em 21? Ou talvez houvesse mais lenha para queimar antes de partir para outra? Quanta liberdade artística Adele teve para produzir 25?

Nada disso é facilmente respondido. 25 está às vésperas de chegar e lutar contra a comparação com 21 não será das tarefas mais fáceis. O álbum anterior, o mais vendido na última década, é um blockbuster da indústria fonográfica. O último depois de anos de trevas para os bolsos dos grandes chefões. 25 venderá milhões, é o que apontam as pesquisas de mercado, mas certamente não chegará ao estrondo do antecessor.

O novo disco de Adele é, como ela mesmo havia definido, um trabalho de conciliação. Não há mais espaço para sombras na voz da cantora. A temática mudou, assim como a vida dela. O passado ainda é capaz de assombrar, a saudade é ardida e permanece guardada em pontos mais obscuros desses versos.

Hello abre o álbum e só não é a melhor a melhor do álbum porque tem alguns fortes concorrentes. É a faixa escolhida também para começar a divulgação de 25, o primeiro single revelado e, como foi comprovado nas semanas seguintes, um sucesso estrondoso. Ali, Adele caminha por um piso seguro. Sua voz dita a força da angústia de uma ligação para um amor do passado – mas ainda presente em saudade e arrependimento. Nunca sabemos o resultado da chamada telefônica, mas o tom sombrio voz de Adele entrega que essa não foi a primeira ligação desesperada, muito menos a última.

 

 

Parte-se para Send My Love (To Your New Lover) uma canção de voz e violão que, com menos produção, soaria mambembe. O que, obviamente, não aconteceria em um disco do porte de 25. Jack Johnson, Jason Mraz e outros cantores mezzo-surfistas trariam uma linha de violão similar à essa. O refrão, desnecessariamente explosivo, parece saído de uma festa pop, colorida, da qual você certamente não se lembrará de nada – a não ser da sofrida ressaca de tanto excesso. É uma canção de perdão. “Não somos mais crianças”, canta Adele. “Estou desistindo de você. Eu perdoo você. Você me libertou”, continua. Por fim, pede: “Mande esse amor para uma nova amante. Trate-a melhor.”

Esquisita à primeira audição, I Miss You cresce a cada novo play. Muito disso se deve à magia do produtor Paul Epworth, com quem Adele já havia trabalhado anteriormente. Bateria, percussão, programação, dão uma base grave para que Adele suba, aos poucos, sua voz. Ascende até agudos dos quais estamos acostumados. Eis, aqui, uma versão 2015 daquilo que gostamos tanto em 2011. Ainda assim, vozes dispensáveis preenchem um espaço que deveria ser só dela. Traria a angústia que esses versos – e o título – sugerem.

Espaços vazios que faltam em I Miss You, mas são bem utilizados na também já conhecida When We Were Young. O segundo single do álbum, também permanece nesse terreno seguro de Adele. Ainda assim, nos faz lembrar porque foi tão fácil se envolver pelas canções de 21.

25 não é um disco apenas de desamores. Há canções de esquentar o coração, em vez de transformá-lo em pó. Remedy tem versos cândidos, uma declaração de amor por vezes piegas. Sustentada novamente pelo piano, instrumento que traduz a gravidade e emoção de Adele nos seus melhores momentos, ela se mostra segura afetivamente. Sugere isso ao par, também.

Grande deslize do álbum está em Water Under the Bridge. Um grande erro de Greg Kurstin, produtor com quem Adele trabalhou em outras duas faixas do disco, a excelente Hello e a também esquizofrênica Million de Years Ago, nona canção do disco. Corais gospel de Water Under the Bridge poluem o soul acelerado, cujos versos também não ajudam.

Menos soul e mais pop, River Lea é comandada pelo órgão executado por Danger Mouse. Midas do pop e do rock, o produtor foi capaz de transformar Adele em outra cantora. Desconectou-a do piano. Deu uma nova embalagem para ela, a mais ousada e mais acertada de tantas invencionices de 25. A guitarra soa de fundo, num dedilhado, enquanto as programações preenchem os espaços.

A dor, cantada tantas vezes da perspectiva de quem perdeu aquele que ama, ganha novas perspectivas em 25 também. Adele não é apenas a moça que sofre pelo rapaz que a abandonou e triturou seus sonhos. Ela sabe dizer adeus, por mais traumático que seja. Ela já tinha flertado com isso em Send My Love (To Your New Lover), mas os festejos harmônicos escondiam o verdadeiro sentimento. O erro foi remediado com Love in the Dark, a única parceria com Samuel Dixon, pomposa faixa com a presença das cordas da filarmônica FILMharmonic Orchestra, da República Tcheca. “Eu acho que você não consegue me salvar”, diz ela, antes de pedir para que aquele que um dia já foi seu amor virasse para o outro lado. “Não consigo partir se você me olhar assim”, canta ela.

25, de certa forma, encerra uma jornada sombria pela qual Adele passou. É como se os discos 19 (de 2008), 21 (2011) e 25 (2015) formassem a trilogia da compreensão da dor. Versos de sentimentos ainda confusos do primeiro álbum, ganharam uma paleta menos colorida em 21, o momento mais difícil do luto amoroso. Aquele momento da raiva, dos arrependimentos e de todos aqueles sentimentos revoltos que preenchem o peito de angústia. 25 vem para iluminar aquele momento sombrio. O passado ainda é responsável por assombrar e trazer dias escuros, por mais que o sol brilhe intensamente do lado de fora. O passar dos anos, contudo, traz luz para a dor. Traz compreensão de erros e acertos.

As harmonias que acompanham esses versos variam de acordo com a época de lançamento e o dinheiro envolvido no processo. 19 é minimalista ao extremo, um reflexo de uma geração de cantoras britânicas que emulavam o soul norte-americano com um violão e nada mais. O piano ditou o ritmo do segundo álbum, com a gravidade necessária para aqueles versos. 25, por sua vez, é o que temos de mais contemporâneo, embora ainda leve algum tempo para nos acostumarmos com esses novos envelopes. O pop, às vezes, soa mais genérico do que deveria. Mas a alma sofrida de Adele, não mais tão sofrida assim, salva o disco do fracasso.

25 é um disco maduro neste sentido. O tempo passou. A vida aconteceu, afinal. Para Adele e para nós.

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