Dati Bendo/Divulgação
Dati Bendo/Divulgação

'Acho fácil demonizar o racista', diz Stromae

Admirado por Madonna, belga filho de africano faz show solo em São Paulo pela primeira vez

Entrevista com

Stromae

João Fernando, O Estado de S. Paulo

18 Março 2015 | 03h00

Enquanto o público chacoalha o corpo na pista de dança, Stromae canta preconceitos e angústias, como em Papaoutai (Papai, onde está você?), sobre o pai morto em um massacre, em Ruanda, na África. Um dos artistas francófonos mais populares nas festas mundo afora, o belga se apresentará no festival Back2Black, no Rio, e fará um show solo em São Paulo, no domingo, 22, à noite, no Audio Club. Em conversa por telefone com o Estado, ele contou como é divertir os outros com palavras nem sempre alegres. O artista, que fala apenas francês, garante não se importar com o fato de ter fãs que não compreendem suas composições.

 

Como você se sente fazendo os outros dançarem ao som de letras tristes e sérias?

Isso me dá prazer. Alguns me perguntam se fico triste porque acham que a minha música é só para fazer festa. As pessoas festejam e não escutam a mensagem nem a história. Não ligo. Quem sou eu para dizer como escutar minha música? Ela só me pertence quando estou no estúdio. Faço para meu irmão, meu empresário e meu público escutarem. Senão, comporia e ela ficaria só no meu quarto. Se querem as letras, ok, estou feliz. Porém, se quiserem ouvir só a melodia para dançar, tudo bem. . Cada um escolhe que o quer gostar da minha música. Pelo menos, apreciaram a melodia. Se já escutam é um superelogio.

Sua música faz sucesso em países onde pouca gente compreende francês, como os EUA e o Brasil. Você, que só fala o seu idioma, tem consciência de que muitos fãs não te entendem?

Não é um problema. No fundo, tenho certeza de que entendem.  Eu utilizo códigos que as pessoas compreendem, mesmo quem não fala a minha língua. Alors on Danse os belgas e os franceses sabem de cor. Ouvem todos os versos e não percebem que é uma canção triste, mas a melodia não. E cantam assim mesmo. Saímos para esquecer os problemas e, mesmo que não solucionemos, saímos para fazer festa. É um costume meu contar coisas tristes de uma maneira que possamos sorrir, nos divertir.

A letra de Bâtard cita o racismo. Você já foi vítima?

Eu tive problemas como qualquer um. Isso só te ensina coisas da vida. Acho que todo mundo, de qualquer cor, já teve uma situação de racismo. Infelizmente, é humano. E, felizmente, é humano todo mundo tem algo de racista dentro de si e quer combater isso. É preciso aprender a viver com os outros. O problema é viver com o outro. Se eu não gosto do meu vizinho não é porque ele é negro, o fundo do problema não é esse. É que somos muitos e temos de conviver juntos e compartilharmos tudo. Todos querem uma fatia do bolo. Fica a impressão, que, às vezes, querem complicar as coisas e chamam isso de racismo. As pessoas chamam isso de racismo, problema de religião é só de aprender a viver juntos.  Acredito que exista racismo no Brasil e em todos os lugares. Para mim, são só desculpas. Acho fácil demonizar o racista.  É importante falar com ele, entender por que é assim. Em vez de falar que é o malvado, é importante ouvir e se comunicar. Temos o hábito de marginalizar. Isso também é um problema, dizer que o mau é o outro. Talvez, o outro diga uma palavra ruim em algum momento, mas pode mudar. O simples fato de falar sobre isso por resolver muitas coisas. Talvez a pessoa se enganou, falou uma coisa ruim e me machucou. 

 

Barack Obama recebeu um CD seu e Madonna quis te conhecer. Qual a sua relação com eles?

O antigo primeiro-ministro da Bélgica deu meu CD para ele e me senti lisonjeado. Acho que ele não teve tempo de ouvir. Eu entendo a quantidade de coisas em torno de alguém que governa um pais.Se ele ouviu, foi simpático. Ninguém nunca vai saber. E Madonna, foi em um show meu nos EUA. Já havíamos nos encontrado antes. Em termos de parceria musical, nada se concretizou.  Seria interessante, pois ela tem uma carreira longa e muito a me ensinar. Seria interessante escutar o que ela tem a dizer. Talvez um dia, pois ela falou isso numa entrevista.  É preciso tempo para nos conhecermos e termos uma relação sincera. 

Como é ser uma estrela da música em um país tranquilo como a Bélgica?

Não Bélgica não há estrelas. É engraçado que as pessoas me reconheçam. Em geral, me conhecem porque já viram minha cara. Na Bélgica, as pessoas são pudicas. Talvez porque eu também seja pudico e tímido. Cada um respeita a vida do outro. Ninguém ousa atrapalhar, cada um está na sua bolha. Como qualquer ser humano, somos muito gentis. Eu vou pouco a lugares públicos. Mas, antes, quando eu pegava o metrô e qualquer um podia falar comigo, eu não gostava disso. Eu não me sentia bem quando alguém que não conhecia falava comigo. É ridículo dizer isso, mas é o que sempre senti isso. Não sei como é no Brasil, se é ao contrario. Nos EUA, as pessoas se falam entre elas. Em Bruxelas, se você não conhece uma pessoa, não fala com ela, senão, é estranho. As pessoas não falam muito comigo e são muito respeitosas quando estou em momentos privados, em família. Se não quero tirar foto, as pessoas dizem que tudo bem. 

No clipe de Formidable, você finge estar bêbado no meio da rua e as pessoas te abordaram. Como foi a experiência?

Havia gente que só olhava, gente que quis ajudar, foi uma experiência interessante.

Como está sua expectativa para se apresentar no Brasil pela primeira vez?

Sabíamos que havia uma demanda para o Brasil.  Meu empresário já tinha me falado sobre isso desde a época do Alors On Danse. Porém, não conseguimos ir. Depois paramos para organizar nosso tempo. Ficamos felizes de, finalmente, colocar o pé no território brasileiro.  É legal porque o País tem uma boa reputação ao redor do mundo, é um país poderoso cultural e economicamente. Há uma riqueza enorme em nível social. Vamos poder ver e sentir as coisas. Estou ansioso, não sei como o público vai reagir e nos acolher. 

Você já declarou ser fã da música Beijinho no Ombro, da Valesca Popozuda. O que mais você conhece de música brasileira?

Conheço samba, a bossa nova e grandes títulos.  Gosto de baile funk. Não sei dizer nomes, só conheço a da Valesca Popozuda. Foi uma faixa que ouvi há pouco tempo e é bem feita, mesmo que eu não entenda o que ela conta, é bom, faz dançar. A cada vez que faço uma festa, a gente ouve e é legal. Tudo o que conheço daí é o ritmo, que é comum em todos os países lusófonos, que tem um ritmo peculiar. Não é africano nem latino nem ocidental. É uma mistura e é isso que faz a riqueza do nosso mundo. É magnífico, podemos ouvir ritmos diferentes, opiniões diferentes é isso que me faz vibrar.

Seus clipes costumam ser bem produzidos. Quais os próximos a serem lançados?

Vamos fazer dois clipes. O da música Carmen, uma releitura da ópera de Bizet, e também e também o de Quand C'est?, que fala sobre câncer. Devem ficar prontos em dois meses.

 

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