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Acervo precioso de Tom permanece inacessível

Show com Caymmi quase foi lançado, enquanto projetos são travados por questões burocráticas

Renato Vieira, O Estado de S. Paulo

06 Dezembro 2014 | 16h00

Um encontro foi o grande destaque do Rio Show Festival, realizado em 1991. Ainda que tivessem gravado um álbum juntos 27 anos antes, Tom Jobim e Dorival Caymmi nunca haviam pisado em um palco na mesma ocasião. Aquela seria a primeira. Nos dias 24 de maio e 5 de junho, os dois amigos se reuniram e convocaram Nana e Danilo Caymmi, o violonista Muri Costa e a Banda Nova de Tom. Nas duas apresentações, idênticas, clássicos foram predominantes. 

Mas ambos queriam olhar para frente. O baiano mostrava pela primeira vez em público sua Maricotinha, que seria regravada por Tom três anos depois em seu último álbum, Antonio Brasileiro. A novidade do maestro foi Querida, tema de abertura de O Dono do Mundo, novela que havia estreado dias antes do evento e hoje é reprisada pelo Viva.

Com Tom se distanciando aos poucos dos shows e Caymmi cada vez mais recolhido à cidade mineira de Pequeri, a oportunidade de vê-los juntos novamente não se repetiu. Mas as apresentações foram gravadas em áudio pela Som Livre e em vídeo pela TV Globo. É apenas um dos preciosos materiais de Tom que nunca foram lançados. É o que revela o pesquisador musical Marcelo Fróes, que em 1999 foi contratado para fazer um levantamento nas fitas do acervo pessoal do maestro e autorizado a buscar o que ele deixou em gravadoras e não foi aproveitado.

Fróes chegou a propor o lançamento do show feito por Tom e Caymmi no dia 5, tecnicamente melhor. Na Som Livre, ele também localizou os tapes, gravados em 24 canais, das participações de Tom no programa Chico e Caetano (1986) e do especial Antonio Brasileiro (1987), que celebrava seus 60 anos. O programa, que trazia duetos com Chico Buarque, Edu Lobo, Marina Lima, entre outros, chegou a ser lançado em DVD posteriormente, com som original mono. No início dos anos 2000, a gravadora foi convencida a lançar o material, que foi mixado por Fróes e pelo engenheiro Jorge Guimarães.

Mas a onda que se ergueu morreu no mar sem doçura. “O mercado de DVD estava começando e a Som Livre priorizou fazer um tributo ao Tom. E também havia questões burocráticas, pois muita gente participou dessas gravações e todos teriam que autorizar”, relembra Fróes. Ele conta que o registro do show feito em Belo Horizonte em 1981, que deu origem ao CD Antonio Carlos Jobim em Minas ao Vivo - Piano e Voz, só saiu em disco porque Tom era o único músico.

Com o centenário de Caymmi e as duas décadas sem o maestro coincidindo em 2014, Fróes vislumbrou, no ano passado, uma chance de lançar o encontro. Ele contatou a Som Livre e uma nova mixagem foi feita, mas ficou restrita ao estúdio. Procurada, a gravadora disse não ter planos de colocar o material nas lojas.

A pesquisa no acervo de Tom gerou histórias curiosas. Fróes conta que, durante a pesquisa, recebeu a ligação de Chico Buarque. “Marcelo, tenho uma música inédita pra você”. Era Que Horas São?, inscrita no Festival Internacional da Canção de 1971, definida à época como uma “canção meio sombria”. Chico e outros compositores se indispuseram com a TV Globo e a censura, que usava o evento para divulgar o País no exterior. A parceria foi retirada do festival e nunca chegou aos ouvidos do público. “Alguém que tiver a confiança de Chico e da família do Tom pode vir a regravá-la”, ressalta o pesquisador.

Registros ao vivo também estavam no acervo de Tom. Entre eles uma gravação do show Terra Brasilis no Rio, em 1985, que quebrou um jejum de sete anos sem se apresentar em público na cidade em que nasceu e exaltou.

Trilhas. Temas e canções para cinema e teatro ocupam parte significativa da carreira de Tom. Foi por meio da trilha da peça Orfeu da Conceição, por exemplo, que ele se tornou parceiro de Vinicius de Moraes. Porém, várias delas, especialmente composições para filmes, nunca saíram em disco, mas estão preservadas.

Fróes localizou os tapes de três delas. A de Tempo do Mar (1971), curta-metragem de Pedro de Moraes, tem arranjos de Dori Caymmi. Nos registros da trilha de A Casa Assassinada (1971), de Paulo César Saraceni, há uma versão instrumental inédita de Águas de Março. Fonte da Saudade (1985), de Marco Altberg, deu a Tom o Kikito no Festival de Gramado.

Permanecem fora de catálogo as trilhas de The Adventurers (1970), lançado no Brasil como O Mundo dos Aventureiros, com os temas Children's Game e Dax & Amparo (que se tornariam respectivamente Chovendo na Roseira e Olha Maria) e Gabriela (1983). Outros trabalho importante de Tom está indisponível no Brasil por questões jurídicas, o álbum com a Sinfonia da Alvorada (1961). Fróes tentou incluí-lo na caixa de Vinicius de Moraes que produziu em 2001, mas não localizou os contratos de gravação. Um selo inglês o relançou posteriormente, sob o argumento de que já estaria em domínio público na Europa.

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