Eduardo Nicolau/Estadão
Eduardo Nicolau/Estadão

'Abraçaço' fecha a fase que distanciou Caetano Veloso das canções

O 49.º álbum do cantor amadurece sua proposta de rompimento estético

Julio Maria - O Estado de S.Paulo,

30 de novembro de 2012 | 08h53

A trilogia está encerrada. Depois de mudar de rumo e praticamente romper com um formato tradicional de canção que marcou suas grandes obras, Caetano Veloso fecha uma temporada iniciada em 2006 com o disco , seguida em 2008 com Zii e Zie e finalizada agora, com Abraçaço - todos gravados com arranjos e acompanhamentos da Banda Cê, um trio de sonoridade seca, roqueira e experimental formado pelo guitarrista Pedro Sá, o baterista Marcelo Callado e o baixista Ricardo Dias Gomes. “Eu adoro trabalhar com eles, pode ser que continue, mas esse modo de fazer fecha-se aqui”, disse Caetano em entrevista ao Estado no fim da tarde de quarta-feira, 28, no Hotel Emiliano, em São Paulo.

Abraçaço, 49.º álbum de Caetano, amadurece sua proposta de rompimento estético - intensificado de forma ainda mais radical na produção e direção que assinou do álbum Recanto, de Gal Costa - e o torna esteticamente menos ‘‘estranho’’ que o antecessor, Zii e Zie. Ainda assim, estão lá os arranjos de ‘barulhinhos estranhos’ e os solos de guitarras distorcidas que o unem aos anteriores e o fazem um disco mais para ser mais ouvido do que reproduzido em voz e violão. “Mas não é só isso que indica se uma canção funcionou ou não para uma pessoa”, diz.

Uma das apostas do próprio criador, a da qual diz gostar mais dentre as 11 inéditas do CD, é a contundente A Bossa Nova É Foda, que menciona em espécies de charada João Gilberto e Carlos Lyra para logo citar os lutadores de MMA Anderson Silva e Vitor Belfort, transformados pela força de um gênero criado pelo “bruxo de Juazeiro”.

Sem dizer o nome de Carlos Marighella, Caetano fez para ele Um Comunista, uma espécie de canção de protesto, um desejo antigo que sai em meio a filme biográfico, livro e outra música, Mil Faces de Um Homem Leal, com clipe premiado na MTV, criados pelos rappers do Racionais MCs. “Não desisti de minha canção mesmo assim.” Gayana, que fecha o álbum, é a única não composta por Caetano. Tem a assinatura do recluso Rogério Duarte, artista gráfico e um dos mentores da Tropicália. Já a letra de Parabéns, de Mauro Lima, era o texto de um e-mail despretensioso que lhe desejava parabéns por seus 70 anos.

Caetano surge para a entrevista ainda sonolento por volta das 18 horas, quando havia acabado de acordar. Em geral é assim, graças a uma insônia que o faz ler, assistir a TV e tocar violão (mas não compor, para não perder o sono de vez) durante a noite toda. Aos 70 anos, parece mais sereno diante de questões provocativas, mas subindo alguns graus na temperatura ao ser questionado sobre os julgamentos do mensalão (“acho ridículo alguns petistas dizerem agora que se trata de um golpe da imprensa, quando Lula havia dito que se sentia traído ao saber do mensalão”), e sobre a improdutiva temporada de Ana de Hollanda no Ministério da Cultura (“Ana não teve tempo porque houve motivações eleitorais que a levaram a ser substituída por Marta”).

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