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Abra os ouvidos

A música é, de fato, um recurso sabidamente capaz de alterar nosso estado de humor

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2021 | 03h00

No pior momento da pandemia de covid-19 até agora, pode parecer fútil tentar animar as pessoas. Soa quase inadequado fazer com que se alegrem. Seria injetar esperança uma forma de torturá-las? Se não fizermos isso, contudo, o vírus venceu. É preciso que consigamos sorrir. Acreditar. Isso é ser humano. Afinal, nós já sabemos que a doença não irá matar de todo a humanidade, mas não podemos permitir que mate a humanidade de todos. 

Tomei consciência do desafio de sorrir no vale de lágrimas da nossa existência quando, com uns 11 anos, acredito, vi na televisão um vídeo da canção What a Wonderful World, interpretada por Louis Armstrong. Não lembro qual era o programa que a exibia, nem o motivo, mas jamais me esqueci da introdução na qual ele dizia ouvir muitas críticas por conta daquela música. “As pessoas me perguntam: ‘Ei, velho, como você pode dizer que nosso mundo é maravilhoso?’”. Se havia fome, guerra, pobreza. 

A resposta, obviamente, estava na letra da canção. As árvores verdes, as rosas vermelhas, o amor entre as pessoas, o futuro de possibilidades aberto diante das crianças com tanto a aprender. “Me parece que não é o mundo que é tão mau, mas sim o que nós estamos fazendo com ele”, dizia Armstrong.

Um pouco mais velho, já na faculdade, contei essa história para o Aloísio, meu grande amigo e hoje professor de Patologia. Deveríamos estar filosofando sobre as lágrimas de Heráclito e o riso de Demócrito, como bons estudantes divagando sobre coisas que não entendem muito bem, e em troca ele me lembrou do trecho mais otimista de Semente do Amanhã, do Gonzaguinha: “Fé na vida, fé no homem, fé no que virá”. Ah, os jovens otimistas.

O fato é que esse refrão voltou a martelar em minha cabeça nos últimos dias. Atendendo a seu chamado, fui ouvir a música toda e as coisas que na letra o menino diz para o cantor ecoaram em minha alma até quase as lágrimas. Ele dizia: “Para não ter medo que esse tempo vai passar”, “Não se desespere não, nem pare de sonhar”, “Nós podemos tudo, nós podemos mais” e ainda me desafiava numa convocação final “Vamos lá fazer o que será”. 

Ouvi de novo. E de novo. E comecei a me sentir mais esperançoso. E a me lembrar de outras músicas com mensagens otimistas além dessas. O menino que mora em nosso coração e toda vez que o adulto balança nos dá a mão, como na canção Bola de Meia, Bola de Gude, de Milton Nascimento. 

Michael Jackson nos pedindo para curar o mundo, fazer dele um lugar melhor, parecia estar concordando com Armstrong. A profecia sobre toda raça experimentando para todo mal a cura, feita por Lulu Santos. Resultado: criei uma playlist chamada #vaipassar só com canções otimistas. E a tornei pública. E colaborativa. Qualquer um pode entrar lá (http://bit.ly/playlistvaipassar), não só para ouvir, mas para dar sua contribuição incluindo mais composições esperançosas.

Porque a música é, de fato, um recurso sabidamente capaz de alterar nosso estado de humor. E ânimo agora não é mais uma questão de escolha, é uma necessidade. Ao lado das vacinas, é o recurso mais importante para nos ajudar a sair dessa. E nós sairemos. Porque vai passar.

É PSIQUIATRA DO INSTITUTO DE PSIQUIATRIA DO HOSPITAL DAS CLÍNICAS, AUTOR DE ‘O LADO BOM DO LADO RUIM’ 

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