Marcos de Paula/Estadão
Marcos de Paula/Estadão

Abertura de show da Madonna é o filme do ano

Após Rio e São Paulo, turnê do álbum 'MDNA' encerra passagem pelo Brasil em Porto Alegre, dia 09

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2012 | 18h49

É um espetáculo de cinema, e quem dizia isso era o diretor Chico Teixeira, de um belo filme - A Casa de Alice. Chico era um dos milhares que, no Morumbi cheio, mas não lotado, assistiram ao primeiro show de Madonna na cidade. A popstar sempre se valeu de alta tecnologia, mas desta vez radicalizou. Os telões tinham uma nitidez, de imagem e som, que você só encontra nas melhores salas Imax. Madonna trouxe o maior LED do mundo ao Brasil.

Talvez com algum gosto pela provocação - já que ela própria é uma grande provocadora -, pode-se afirmar que a abertura de MDNA, com a missa profana, pode muito bem ter sido o melhor filme do ano que se encerra. Antes mesmo que Madonna entrasse em cena, o cenário virtual já estava montado - uma imponente catedral gótica. Frente a ela, vestindo longas capas vermelhas, os oficiantes do culto satânico. Despidos das capas, os dançarinos exibem corpos esculturais e seminus. O clima está pronto para que Madonna entre em cena e destrua sua catedral.

A Mãe, o Filho, pois afinal é Madonna. A liturgia é católica, mas a missa é profana. Madonna pega em armas contra o dogma. A catedral estilhaça-se. Nada real, tudo virtual, mas a estrela canta e dança com uma energia que deixa o público aturdido. A imagens e seu fluxo não são aleatórios. Um mínimo de Freud permite o entendimento de que ela psicanalisa a religião, o mundo, o show biz.

Críticos musicais podem bater nas teclas de sempre - quanto ao repertório do show, ao fato de ela mesclar canto e playback. Mas, realmente, dançando daquele jeito, Madonna não poderia cantar o tempo todo. Nem ela tem energia para tanto. E ela emite palavras de ordem - “Gay, straight, men, women, black and white. Whatever. One soul.” Uma só alma. “Do you understand me, Sao Paulo?”, ela pergunta duas vezes. E dispara - ‘Ca-rra...!”

Madonna incorpora o cinema. Seu parceiro, o roteirista (e diretor) Alek Keshishian, garante que ela é cinéfila de carteirinha, sabe tudo sobre Jean-Luc Godard, mas ama Crescei-vos e Multiplicai-vos, de Jack Clayton (com roteiro de Harold Pinter). Madonna pode amar o intimismo, mas faz shows para massas. MDNA vira um grande espetáculo hedonista de fazer inveja a Zé Celso Martinez Corrêa. Homens e mulheres, homens entre eles, mulheres entre elas agarram-se despudoradamente na pista, nas arquibancadas. One soul. “É cinema”, proclama Chico Teixeira. Madonna não se acomoda no trono de rainha do pop. Mais que a transgressão, o desafio que a move, aos 54 anos, é o desejo de superação.

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