A volta do rap positivo de Wycleaf Jean

Haitiano de nascimento, americanode adoção (vive em Nova York desde que tinha 9 anos), WyclefJean foi hype com a banda Fugees, nos anos 90, e depois selançou numa celebrada carreira-solo com dois discos. Mas estavana moita até recentemente. Estava, porque agora ele voltou em grande estilo, comMasquerade (Sony Music), seu terceiro solo. Com convidadosheterodoxos, como Tom Jones, Claudette Ortiz (do City High),Melky, Ja Rah Rah e Butch Cassidy and Sharissa, entre outros,Wyclef dá uma sacudidela no ambiente morno que vive o rapamericano, feito de carão e pose. Mesmo sob acusação da crítica americana de ser poucocontundente como rapper (what?), Wyclef transita numa áreacriativa mais profunda, com seus riffs de guitarra, uma simbiosecom o soul e o R&B mais urbanos, arranjos sofisticados, violõesbem tocados e indiferença com a tradição "palavrosa" ediscursiva do hip-hop. Também examina outras tradições, como ado reggae, em War No More (na qual fala de si mesmo e de seupassado musical nos Fugees) e em The Mix Show, aí jádissecando o ragga. "Música é sempre o elemento mais forte de quedispomos", diz Wyclef. Produzido por Jerry "Wonder" Duplessis epelo próprio Jean, Masquerade foi feito em pouco mais dedois meses e mantém a determinação do compositor de injetarsuingue no rap. Wyclef não é o mais raivoso dos cantores, nem umMC à prova de palco, mas como produtor, compositor e músico éinfinitamente superior aos seus congêneres. "Estou à frente do meu tempo como Jimi Hendrix tocavaem Woodstock", ele canta, em 80 Bars. Mas sua perspectiva não ésomente a heróica. Wyclef gravou com gente de toda praia, comoCélia "Azucar" Cruz, o caubói Kenny Rogers e Tom Jones, e reviraa tradição da canção americana com seu senso melódico (do rockao rap) e só ideologicamente aparentado da música das ruas. É o que faz, por exemplo, em Knockin´ on Heaven´sDoor, de Bob Dylan, já regravada pelo mundo todo, deTelevision a Guns N´ Roses. Pequena maravilha do universo pop em2002, a versão de Wyclef Jean traz um violão dedilhado comlassidão e entrega, teclados sutis, baixo marcante e grandesenso dramático. Em Two Wrongs, ele usa com maestria o talento vocalde Claudette Ortiz, do grupo City High, e capricha no lirismo."Não posso mais ver o sol/ Estou tão acostumado com a dor que adoença parece uma cura." Com o apoio vocal de Melky, na faixa-bônus, MVPKompa, ele vai em busca de outra seara, a do pop africano,percussivo, festivo, mas também bem tocado, como o de Ali FarkaTouré. Em Ghetto Racine, o objeto é a babel lingüística dadiáspora da música negra, com versos em francês e inglês e umjorro verbal que mistura tudo. Ele explica tudo apontando para o leão estilizado nocolar, em entrevista ao site Hiphop DX: "Isso é das 12 tribosde Judá", explica. "Eu sou da tribo de Levi, que é de onde atribo haitiana descende. Significa poder." Quando estava nos Fugees, Wyclef era efetivamente océrebro, o organizador da mistura sonora, enquanto Lauryn Hillera o carisma, a potência, o talento interpretativo. Sozinho,ele se obriga aos dois papéis, renunciando à postura desuper-homem da beira do palco. De família humilde, Wyclef costumava limpar banheiroscom o pai quando era garoto, e é dessa época que resolveu gravaruma cover de December, 1963 (Oh, What a Night), de FrankieValli, megassucesso dos Four Seasons - o equivalente aos Beatlespara o R&B. "Meu pai costumava ouvir quando limpávamosbanheiros", ele conta. "A canção me fazia esquecer que nóstrabalhávamos por US$ 4,50 a hora", lembra. Mensagens - Diferentemente da maioria dos rappers,Wyclef faz uma música positiva, com mensagens otimistas: exortaas crianças a permanecerem na escola, iniciantes no métier atomarem cuidado quando assinam contratos com selos e por aí vai."Eu sou um historiador da música. Cresci ouvindo todo tipo demúsica, e quem sabe 30 anos depois eu possa mixar isso e criaralgo a partir dessa experiência", conta. "Um produtor é comoum psicanalista. O psicanalista faz você se sentir relaxado,como se você estivesse com o controle total. Vou ao estúdio comuma lenda como Carlos Santana e não entro numa egotrip. Eumostro a ele minhas idéias e quando ele se sente confortável éque tenho seu retorno, e então ele me dá aquilo que eu quero.Foi o que fizemos quando gravamos Maria Maria." Confessional nas letras, mas não a ponto de fazermea-culpa progressivo, Wyclef aborda em Daddy a morte do pai(uma canção que remete ao clássico Dear Mama, de Tupac). "Éminha canção favorita", diz. "É meu lado emocional, vulnerável, e é importante ser vulnerável às vezes. Não estou tentando serum cara durão, porque gosto de mostrar aos garotos que você podeser um casca-dura às vezes, mas que vai ser OK se você quiserchorar." Ele acha que sua maior responsabilidade é representar um"outro lado do hip-hop", diferentemente de Jay-Z e Puffy, eexplica por quê: "Eu sou um dos últimos músicos do hip-hop quequer ser ao menos um pouquinho consciente. Perdeu-se aversatilidade no rap. Quero que Masquerade seja indicado paraum Grammy de melhor álbum de rap. Não que isso vá representarmuito para mim, mas se nosso triunfo puder ajudar a mover essetipo de hip-hop para a frente, se puder fazer o próximo hip-hopsoar assim (mais musical), vou gostar."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.