DAN COELHO
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A volta do boêmio Nelson Gonçalves em musical

No centenário de nascimento do popular cantor, sua vida é contada no palco, tendo Guilherme Logullo no papel principal

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

02 de janeiro de 2019 | 06h00

A diretora e coreógrafa Tania Nardini aguardava um voo de conexão para a Austrália no aeroporto de Santiago do Chile quando recebeu um telefonema que mudaria seus planos. Do outro lado da linha, o ator Guilherme Logullo fez um convite tentador: dirigir um musical em homenagem a Nelson Gonçalves, um dos maiores cantores da história da MPB. Tania continuava ainda comprometida com uma importante função: a de comandar montagens internacionais de um musical de sucesso, Chicago. “Ele me enviou o texto e, inicialmente, achei difícil. Mas logo vieram as recordações de minha mãe e minha tia ouvindo Nelson, que não tive como resistir”, conta a encenadora, que assina a direção e a coreografia de Nelson Gonçalves – O Amor e o Tempo, que estreia na sexta, 4, no Teatro Clara Nunes, no Rio.

Trata-se de uma singela homenagem ao cantor cujo centenário de nascimento se comemora em 2019 – ele morreu em 1998, pouco antes de completar 79 anos. Ao lado de Orlando Silva e Francisco Alves, Nelson formou a chamada suprema trindade vocal masculina da era do rádio, nos anos 1950. Cantores cuja voz empostada conquistaram milhares de fãs e dominaram o mundo musical com seus sambas e canções de dor de cotovelo. “Fiquei fascinado com a figura do Nelson quando fazia pesquisa para um personagem e também me encantei com a semelhança do nosso registro vocal”, conta Logullo que, da admiração, partiu para a prática – um dos mais importantes intérpretes de musical no País, com papéis marcantes em Bibi – Uma Vida em Musical e Pippin (para citar apenas os mais recentes), ele decidiu produzir o espetáculo, estreando nessa dura função. Para isso, contou com um punhado de importantes colaboradores.

O texto, por exemplo, foi escrito por Gabriel Chalita, que partiu de duas importantes características das canções de Nelson, o amor e o tempo. “Quis escrever um texto que, de alguma forma, fugisse um pouco dos musicais tradicionais. Nelson Gonçalves foi um homem que amou profundamente e que, também por isso, sofreu. O espetáculo traça um diálogo entre a razão e a emoção, reforçado pela força e dramaticidade das canções interpretadas por ele. As músicas entrelaçam essas falas o tempo todo, enfatizando essa disputa de sentimentos”, explica Chalita, que também se preocupou em levar o público à reflexão das próprias inquietudes e sentimentos. “Todos temos esses dois lados.”

Assim, em cena, estão apenas Logullo e a atriz e cantora Jullie, interpretando as diversas faces do cantor. “Enquanto ela simboliza o lado mais racional, aquele capaz de dizer ‘não’, ele mostra o lado mais emocional, delicado”, conta Tania. “Chalita escreveu um texto poético, quase sem diálogos, permitindo que os atores se apropriassem das canções como forma de expressão.”

Por outro lado, isso resultou em uma série de desafios. A começar pela costura das 33 canções escolhidas, cujos trechos são encadeados a fim de se contar a história de um momento. “Tania teve a feliz ideia de dividir o espetáculo em quadros, o que facilita na amarração da trama”, comenta Logullo. “Mas, por conta disso, tivemos de fazer marcações precisas para enfrentar uma partitura difícil e a fim de se evitar o tradicional ‘termina diálogo, começa canção’.”

É aí que se sobressai a importância da direção musical de Tony Lucchesi, responsável pela amarração melódica das músicas que favorece o jogo cênico. “Para construir uma cena em que os dois personagens fazem um duelo de opiniões, precisei fazer um medley com 13 canções”, conta ele. “As melodias foram respeitadas e usadas a fim de deixar a interpretação das músicas mais teatral.”

Surgem, assim, momentos preciosos, como a costura entre Carinhoso (Pixinguinha e João de Barro) e Insensatez (Vinícius de Moraes e Tom Jobim), em que Tania também revela seu talento como coreógrafa, criando passos que lembram a Broadway. “Esse é um espetáculo em que os atores necessitam ter uma inteligência cênica para transmitir a emoção pela voz e pelos gestos”, observa ela. “Guilherme e Jullie são atores jovens cantando músicas de outro tempo, com uma linguagem moderna mas sem desrespeitar o rico passado musical do Brasil.”

Biografia. Nelson Gonçalves (1919-1998) deixou como herança uma carreira marcada por sucessos estrondosos, mas também uma série de histórias duvidosas a seu respeito. “Criou-se um mito em torno do Nelson”, contou, em 2002, o escritor Marco Aurélio Barroso, autor de A Revolta do Boêmio – A Vida de Nelson Gonçalves, em que mais retifica que ratifica as informações sobre o cantor. “O problema é que ele mais ajudou a alimentar que destruir as falsas histórias, por ser uma pessoa muito insegura.”

Gaúcho de Livramento, mas criado em São Paulo, Antonio Gonçalves Sobral dizia que a vida se resumia a uma luta eterna. De fato, sofreu a decepção de ser rejeitado, no início da carreira, por Ary Barroso, em seu programa de rádio A Hora do Calouro

Sua primeira gravação ocorreu em 1941, quando cantou um samba de Ataulfo Alves e, durante toda aquela década, suas apresentações buscavam imitar o timbre de Orlando Silva. Foi em 1952, quando começou a gravar as músicas de Adelino Moreira, que Nelson se firmou como o maior cantor do Brasil, fama intocável até 1957, quando começou a utilizar drogas.

A consagração tornou-o um homem instável, colecionando mulheres e filhos que eram simplesmente abandonados. “A família de Nelson em uma década não é a mesma nos dez anos seguintes”, conta Barroso, que relata a violência com que tratava suas mulheres e a desatenção com o filhos, para os quais não pagava pensão. “Ele não fazia isso por maldade, mas por completo desconhecimento em como enfrentar a vida em família.”

O pior momento aconteceu em 1966, quando foi preso por portar cocaína, vício maldosamente explorado pelo jornalista David Nasser, na revista O Cruzeiro. Nelson conseguiu reverter a situação e, nos anos 1970, quando modernizou o repertório, gravou com admiradores, como Bethânia, Chico, Milton e Caetano – o último remanescente do estilo de voz empostada não estava preso ao passado. Deixou sucessos como Negue, Fica Comigo Esta Noite, A Volta do Boêmio, Escultura e Meu Vício É Você. Em quase 60 anos, cantou samba-canção, mas também tango, bolero, choro, valsa, modinha e outros gêneros

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