A volta de Lanny Gordin, o nosso Hendrix

Mestre das harmonias, lenda viva dos guitarristas, Hendrix da tropicália, criador inclassificável, último dos malucos geniais... Sempre que ouvia as pessoas dizerem que era tudo isso ao mesmo tempo, Lanny Gordin abria o sorriso. "Não passo de um aprendiz. Mas chego lá um dia", repete ainda hoje, sem o tom da falsa modéstia.Mais de 30 anos depois de seus primeiros acordes profissionais, Gordin começa a se convercer de que seus admiradores não estavam tão equivocados assim. Praticamente arrastado para um estúdio pelo amigo Luiz Calanca, da loja e selo Baratos Afins, gravou o primeiro disco-solo desde sua estréia. O álbum sai pela Baratos Afins (www.baratosafins.com.br) e está programado para ser mostrado nos palcos ainda este ano.Sua história, antes de falar em sua música, coloca no bolso qualquer roqueiro "junkie" que diz ter conhecido o inferno em algum momento de sua carreira. Lanny tanto "viajou" em LSD e cocaína que perdeu o chão. Foi internado em manicômios por quatro vezes, fez tratamentos a base de eletrochoque e ainda toma fortes medicamentos anti-depressivos. Em uma "bad trip" de ácido, queimou com cigarro a palma de uma das mãos, marcada com uma cicatriz que, diz, se parece com um cavalo.Gordin nasceu em Xangai, na China, há 50 anos. Filho de pai russo e mãe polonesa, morou ainda criança em Tel Aviv, Israel, antes de chegar ao Rio de Janeiro, com seis anos de idade. Ainda na infância, veio para São Paulo com a família e começou a estudar violão. Seu auge foi entre 1969 e 1972, anos em que trabalhou a serviço de Gal Costa, Rita Lee, Caetano Veloso, Jards Macalé, Erasmo Carlos, Tim Maia, Gilberto Gil, e Eduardo Araújo. Os tropicalistas, em especial, quase se pegavam para tê-lo em seus discos. "Ele me ensinou 80% do que sei de harmonia quando fez para mim os arranjos de Você Precisa Aprender a Ser Só. O cara é maravilhoso", reverencia Sérgio Dias, considerado um dos dez maiores guitarristas brasileiros.Uma viagem à França com Jair Rodrigues e o grupo Originais do Samba, em 1972, foi seu último trabalho antes da queda. Ainda com sua saúde mental em recuperação, diz não ter dado na vida um passo do qual se arrependa. "Meu pai me perguntou se eu achava que tinha feito algo de errado na vida. Disse que tudo foi necessário para chegar a ser o que sou. Estou aprendendo a ser um grande músico."

Agencia Estado,

06 de dezembro de 2001 | 10h52

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