Arquivo Pessoal
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A volta de Eliana Pittman, pioneira e glamourosa show woman negra do País

Cantora acabou sendo vítima de longo ostracismo somente comparável ao de outro ícone black, Wilson Simonal

Rodrigo Faour, O Estado de S. Paulo

16 de dezembro de 2019 | 06h00

Numa época em que as cantoras negras só tinham vez como sambistas, Eliana Pittman já começou com espírito de superstar. Usando a expressão da moda, foi nossa primeira cantora negra “empoderada”. Desde cedo, já cantava de tudo, aprendendo dentro de casa o glamour negro do showbusiness norte-americano quando sua mãe, Ofélia, separada de seu pai biológico, encantou-se com o suingue do jazzista Booker Pittman, e foi viver com ele em 1958.

Em pouco tempo, já se tratavam como pai e filha, e ele mostrou-lhe discos de Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan, suas primeiras “professoras”. Aos 14, ensaiaram um número juntos e logo já atuavam em gravações, rádio, TV, e excursionavam por Argentina, Alemanha e Estados Unidos, quando estudou canto com o coach de Barbra Streisand.

Na volta, seu pai lhe disse que chegara a hora de conhecer a música da sua terra, e levou-a ao desfile das escolas de samba cariocas. Encantada, iniciou a tradição de se gravar sambas-enredo, com O Mundo Encantado de Monteiro Lobato, em 1967. 

Nessa época, Booker foi diagnosticado com câncer na laringe. Além de cantar em várias línguas com sua pegada jazzy explosiva, Eliana passou a contar anedotas e interagir mais com seu público, definindo seu estilo show woman pelo qual ficaria conhecida, sendo convidada a atuar em grandes palcos internacionais até meados dos anos 1970.

Lançou Geraldo Azevedo e algumas das primeiras canções de Martinho da Vila, Gonzaguinha e João Nogueira. Deste último, estourou Das 200 Para Lá (Esse Mar É Meu) em 1972, sendo levada ao escaninho das negras sambistas, mas fez sucesso mesmo com o carimbó. A seguir, quiseram fazer dela a rainha da disco music no país. Ela recusou. Com sua personalidade forte, sempre ao lado da inseparável mãe-empresária, Ofélia, que por ter sofrido muito na vida (pobreza, machismo e racismo), tentava promovê-la a qualquer custo, Eliana acabou sendo vítima de longo ostracismo somente comparável ao de outro ícone black, Wilson Simonal.

Tive a oportunidade de dirigi-la num show. Embora por vezes popular demais na interação com a plateia, ela só gosta de cantar melodias sofisticadas, com arranjos criados por ela, sempre bem vestida e maquiada. Imperativa e exigente, tudo tinha que ser do seu jeito. Cantando em palcos modestos, o glamour e o profissionalismo em cena evocavam seus tempos áureos. 

Eliana Pittman nunca se rebaixou ou quis o mais fácil. Isso talvez explique esse hiato tão extenso. Agora ela tem tudo para retomar seu posto. Continua bonita, cantando bem, suingada e com seu glamour negro natural intacto, talhado por papai Booker (neto do educador Booker T. Washington, que fundou a primeira universidade para negros nos EUA) e mamãe Ofélia (que desde pequena frequentava a Frente Negra Brasileira, criada por seu tio em São Paulo). Eles a ensinaram a pensar grande e a não se rebaixar ou se contentar com migalhas.

RODRIGO FAOUR É JORNALISTA, PRODUTOR E HISTORIADOR DE MÚSICA BRASILEIRA

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