A vida de Gonzagão, na TV Cultura

O programa Doc. Brasil, da TVCultura, apresenta, no sábado, às 21 horas, o documentárioAs Sanfonas do Lua - bela homenagem aos 90 anos do grandecompositor pernambucano. Gonzaga morreu em agosto de 1989. Nosúltimos tempos, vivia de volta na cidade natal, Exu, no sertãode Pernambuco. No dia de seu aniversário, 13 de dezembro, reuniaos amigos na varanda da casa, para uma cachacinha e muitamúsica. Aliás, reunia os amigos no dia 12 e no dia 13. Era umafesta longa. Depois de sua morte, os amigos continuaram fazendoa festa. "Era assim ele gostaria que fosse", conta, nodocumentário, um deles, sanfoneiro, que ainda mora em Exu. A direção de As Sanfonas do Lua é de Mario Rezende,que também fez a pesquisa e o roteiro do documentário, usandoimagens dos arquivos da "TV Cultura", mas viajando, também, aExu, para mostrar a festa do 13 de dezembro, à qual acorre gentede todo o País - sanfoneiros, muitos deles discípulos de Gonzaga gente da região, turistas que vão ali para ouvir, cantar edançar forró de verdade. É ótimo, o documentário, que dura 53 minutos e poderiadurar mais. Dividido em três blocos, alterna, com tranqüilidadesertaneja (nada de linguagem de clipe, cortes bruscos, imagensretrabalhadas) cenas de arquivo, galeria de fotos, vistas dafesta e depoimentos dos discípulos de Gonzagão: Dominguinhos,Oswaldinho, Waldonys, Zé de Benona, Arlindo dos 8 Baixos,Hildelito Parente, Vital Barbosa, Luizinho Calixto - dezenas desanfoneiros, além de Gilberto Gil, que, no ano passado, lançou oCD São Luiz Vivo, homenagem àquele que foi um de seusmestres. Foi imitando a respiração do fole de Gonzagão que Gilcriou o revolucionário pulso violonístico da canção Expresso2222. Numa idéia brilhante, o diretor Mario Rezende optou porcontar a história de Luiz Gonzaga tendo a sanfona como condutorada narrativa. Gonzaga era filho de sanfoneiro - Januário,tocador de oito baixos, para quem ele comporia, mais tarde, oxote Respeita o Januário. Menino, por volta dos 8 anos, Gonzagajá tocava com o pai. Mas não tinha uma boa sanfona. Um coronelda região viu que tinha talento e deu-lhe uma. "Ele ficou tãofeliz que desmaiou", conta, em depoimento, a irmã ChiquinhaGonzaga, também sanfoneira, como, por sinal, os outros irmãos,Severino Januário e Zé Gonzaga (que Luiz considerava o melhorinstrumentista da família). Gonzaga não esqueceu o gesto do benfeitor. E, ao longoda vida, todas as vezes em que encontrava um músico de talentoque não tivesse instrumento à altura de sua habilidade, dava-lheum bom instrumento de presente. Não há conta precisa de quantassanfonas deu. Foram mais de 300. Algumas, para nomes hojefamosos. Gonzaga viu Dominguinhos numa feira, em Caruaru, em1954. Dominguinhos tinha 8 anos (como ele mesmo tinha, quandoganhou a primeira sanfona). Ficou impressionado com o talento domoleque e - tome sanfona. Para Oswaldinho, para Pedro Sertanejo,para Waldonys, conhecidos, anônimos. Até o início da idade adulta, Luiz Gonzaga ficou pelosertão, tocando, ganhando dinheiro nas festas e feiras. Masapaixonou-se pela filha de uma família ´remediada´, como dizChiquinha Gonzaga, que não gostava do namoro com ´aquele preto´.A mãe de Gonzaga proibiu o filho de ver a moça, para não serhumilhado. Gonzaga fugiu. Alistou-se no Exército, foi parar emFortaleza, depois Juiz de Fora, São Paulo e Rio - foram noveanos como corneteiro militar. No Rio, tocou na zona do baixo meretrício enquantotentava chance no rádio. Contratado pela Rádio Nacional, foiproibido de cantar pelo diretor da emissora, o compositor ejornalista pernambucano Fernando Lobo (pai de Edu Lobo). Gonzagaera acompanhante, não cantor, conta Dominguinhos. Depois, usavaaquele chapéu de couro, sandálias, gibão. "Mas foi ele quem deuchance ao artista nordestino de se vestir como nordestino",afirma outro depoente. "Na verdade, ele se vestia de Lampião;ele viu os cabras de Lampião xaxando, e foi isso que trouxe parao Sul", completa Dominguinhos. Sempre de acordo com o discípulo, Gonzaga cristalizou alinguagem do baião e de suas variações - o xote, o arrasta-pé, oxaxado. Além de ter inventado uma maneira nova de tocar oacordeão, que preferia chamar de sanfona. "A puxada de foledele, ninguém fazia, só ele, foi ele quem inventou", dizWaldonys - aquele jeito que dava ao toque uma respiraçãoentrecortada e balançada, o resfolego que ninguém faz igual , eque foi o que Gil transportou para o violão no citado "Expresso2222". Os amigos, familiares e seguidores contam histórias deGonzaga, algumas sentimentais, outras engraçadas - numa ocasião,depois de 30 anos gravando pela RCA Victor, queixou-se de quenão conhecia o dono da fábrica, só o cachorrinho (o logotipo deRCA era o desenho de um cachorro em frente a um gramofone). Já idoso, Gonzaga tinha osteoporose. Usava cadeira derodas, mas não deixou de tocar. Perto da morte, disse para ZéBenona: "Eu vou, mas vocês segurem o baião, porque as outrasmúsicas passam, mas o baião precisa ficar." O documentáriotermina com Gonzaga tocando os últimos acordes de Asa Branca.Termina a música, sorri aquele riso aberto e pergunta: "Épreciso dizer mais?"

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