Valentin Flauraud/Reuters
Valentin Flauraud/Reuters

A viagem tropical de Esperanza

Assombro do novo jazz, ela fala de sua paixão por Milton

Jotabê Medeiros - O Estado de S.Paulo,

20 de setembro de 2011 | 21h13

Era uma garota do Oregon que amava Milton Nascimento e o Clube da Esquina.

Agora, Esperanza Spalding (que canta hoje no Teatro Bradesco, em São Paulo) já está ensaiando com Milton há uma semana para o show de uma hora que farão juntos no Rock in Rio, no sábado. A amizade veio amadurecendo aos poucos - ela já tinha passado o réveillon com o cantor e sua família em Búzios, conversando, experimentando comida brasileira, tomando sol. “É o ponto alto da minha vida”, disse ontem extasiada a cantora e contrabaixista Esperanza, falando ao Estado por telefone de seu hotel no Rio.

E olha que ela, aos 27 anos, já cantou três vezes na Casa Branca para o presidente Obama. “Amo ouvir Esperanza, ela é maravilhosa”, derreteu-se o presidente americano depois do último pocket show, do qual participou também Stevie Wonder.

Maravilhosa, linda e talentosa, ela ganhou o Grammy este ano como Artista Revelação, mas já assombra o mundo do jazz há pelo menos uns 5 anos. Discípula de Wayne Shorter, formada pelo prestigioso Berklee College of Music (do qual se tornou a professora mais jovem, aos 20 anos), Esperanza é um espanto.

Mas sua maior obsessão é mesmo Milton Nascimento. Ela já tinha gravado dele Ponta de Areia, em português, com um esforço fenomenal para domar a língua. “São muitos os pontos que eu admiro em Milton. O primeiro é ele mesmo. Tudo que ele cria, para mim, é inspirador. O jeito que ele canta, os arranjos, as melodias. Não tenho condições de saber tudo que ele fala, porque não conheço a língua e as condições históricas em que ele criou as canções. Mas vejo que é uma música social e politicamente consciente. Ele é um cidadão do mundo por causa do jeito como pensa e age. Suas canções têm mensagem sobre política, consciência social, virtualidade, e é por isso que adquirem significado em todo lugar do mundo”, diz ela.

Esperanza diz que não está nem um pouco preocupada com a reação do público massivo do Rock in Rio à música mais intimista que ela e Milton fazem. “Os mesmos artistas podem tocar de muitos jeitos diferentes. Podem tocar músicas mais festivas, mais ‘rock’, mais dançáveis. Um bom performer escolhe as canções apropriadas para a plateia apropriada”, diz.

Ela vai tocar baixo, Milton vai tocar violão. Ensaiaram canções como Fé Cega, Faca Amolada e Eldorado, mas Esperanza ainda não sabe quais serão as escolhidas para o encontro. Ela terá dois grandes ídolos ali no palco do Rock in Rio - o seu parceiro Milton e o cantor Stevie Wonder. “Amo Stevie, mas Milton é particular, não é comparável a nenhum outro. Tem seu próprio lugar na música”, afirma a cantora, que alimenta o sonho de gravar um disco inteirinho com o mineiro. “Não sei quando, não sei como, mas temos planos."

Esperanza diz que ficou surpresa ao ganhar o Grammy, mas que aquela categoria “era a única em que isso podia acontecer”. Segundo diz, a escolha de Artista Revelação não é circunscrita ao pop ou ao rock, é mais abrangente, vai de Justin Bieber a Drake. Ela considera que, “às vezes”, o que faz é jazz, mas que não é restrito ao jazz. “Quando você está num campo de batalha, o que importa no final do dia é o quanto de criatividade imprimiu ao seu trabalho, quantas ideias novas obteve.”

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