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A utopia sonora de uma orquestra

DVDs contam a história do Spira Mirabilis, grupo que se reúne para tocar - sem maestro e em praças públicas

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2014 | 02h11

Não se deveria permitir a pessoas que se detestam fazer música juntos. No entanto, isso é muito comum. Membros do quarteto Amadeus, por exemplo, iam ao teatro em carros diferentes, não se falavam; nas orquestras, o fenômeno é ainda mais flagrante, porque envolve muitas vezes o staff de apoio. A frase é do maestro Charles Munch, em seu livro A Arte da Regência, que, a certa altura, lamenta ter de qualificar como casamento sem amor o vínculo que em geral une os músicos à orquestra.

Será que não existe salvação? Como um organismo que envolve de 50 a 120 músicos pode reconstruir o prazer, a alegria genuína de fazer música? Um grupo de 51 músicos, com média de idade abaixo dos 30 anos, e de 16 nacionalidades diferentes, decidiu romper este círculo vicioso em 2007. Eles estavam cansados da vida de músico de orquestra, onde é impossível aprofundar a interpretação de uma obra; onde os ensaios são sempre superficiais; onde os músicos não podem participar e dar sua opinião sobre a interpretação.

Escolheram como quartel-general de sua utopia a pequena cidade de Formigine, no norte da Itália. Tão pequena que sequer possui teatro ou hotel. Ensaiam no ginásio poliesportivo e dormem numa antiga construção com um banheiro para cada 30 pessoas. Não são músicos quaisquer: ocupam as primeiras estantes de vários grupos e orquestras prestigiados na Europa. Ensaiam em torno de 10 horas diárias, em cinco ou seis semanas ao ano escolhidas nas brechas das agendas convencionais. Ninguém recebe remuneração. Deram à empreitada o nome de Spira Mirabilis. E, primeira providência, aboliram a figura do maestro.

A maravilhosa história desta utopia hoje real está no primeiro de dois DVDs recém-lançados no mercado internacional pela Idéale Audience. No outro, de 40 minutos, assiste-se a uma performance memorável do Spira Mirabilis na Sinfonia nº 1, de Schumann. Fecha-se assim um raro círculo virtuoso. Foi com a peça que eles elaboraram seus princípios. Hoje já "construíram" interpretações de outras sinfonias, como a quarta de Beethoven e a quarta de Schubert.

No diário conjunto que mantinha com Clara, logo após o casamento, em janeiro de 1841, Robert Schumann revela que se inspirou num verso do poeta Alfred Bottger ("No vale, a primavera explode em flores") para compor em quatro dias a sinfonia. É impressionante assistir ao modo como eles ensaiam os primeiros oito compassos da sinfonia cantando suas partes com os versos em alemão. O violinista Timoti Fregni diz que "podemos discutir um compasso por 40 minutos; para quem acaba de chegar, 10 minutos tudo bem; aos 20 minutos, já começa a se desesperar; aos 30 quer nos matar; e aos 40 minutos quer se suicidar. Mas todos nós temos fé que não estamos perdendo tempo".

A ideia de uma orquestra sem maestro tem antecedentes. No período imediato à Revolução de 1917, a União Soviética viveu uma convulsão artística e cultural tão expressiva quanto a de outros períodos iluminados, como o "apocalipse glorioso" da Viena da passagem das pros séculos 19/20 ou a Alemanha de Weimar, nos anos 1920. Lá nasceu a Orquestra Persinfans, o primeiro experimento sem maestro. Morreu juntamente com a utopia da revolução e a ascensão de Stalin.

Os Spira, entretanto, prescindem do maestro não porque odeiem a figura; queriam desligar o piloto automático da rotina na qual viviam, para instituir um novo modo de construir a interpretação, um modelo onde cada músico tem o direito de interferir. Começaram anárquicos, mas aos poucos instalou-se entre eles uma democracia meritória, ou seja, só se fala quando de fato se tem algo relevante a contribuir.

Os músicos passaram também a fazer intervenções (os "happenings" dos anos 60) tocando movimentos isolados de sinfonias de Beethoven, Schubert ou Schumann em praças públicas, metrô, bares, qualquer local onde haja aglomeração. "Já nos acusaram de terrorismo. Aliás, nós chamamos isso internamente de 'ataque terrorista'", diz rindo a clarinetista Miriam Calderini. A meta é "levar música clássica a pessoas que não imaginam que ela possa entrar em suas vidas" (Lorenza). Afinal, ao longo dos séculos, as emoções humanas não mudam. E o poder da música também, desde que seja tocada com talento, competência e, acima de tudo, verdadeira paixão.

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