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A última vez que Amelinha encontrou Belchior, em 2009, ele estava traduzindo o 'Inferno', de Dante

A cantora pertenceu ao grupo de cantores cearenses que despontou no início dos anos 1970, conhecido como 'Pessoal do Ceará'

Amilton Pinheiro, O Estado de S. Paulo

30 Abril 2017 | 14h32

A cantora Amelinha estava com a filha em Niterói, em sua casa, quando recebeu a notícia sobre a morte do amigo Belchior. Era por volta do meio dia deste domingo, 30. Ela disse que as pessoas a pouparam de falar antes, por causa dos problemas que tem de hipertensão.

“Na última vez que falei com Belchior, ele me disse que estava traduzindo o 'Inferno' uma das três partes de A Divina Comédia de Dante (Alighieri), e estava muito entuasiasmado com o texto”, falou a cantora por telefone.

Amelinha, que foi casada com Zé Ramalho, pertenceu Pessoal do Ceará, grupo de cantores cearenses que apareceu no início dos anos 1970, entre eles, Ednardo, Zé Ramalho, Fagner, Fausto Nilo, e Belchior. “Eu conhecia Fagner, e já tinha ouvido falar de Belchior, que todos consideravam uma pessoa erudita, que gostava de falar de filosofia, de arte, de música, era de fato uma excelente conversa”, disse.

Ela foi apresentada a Belchior em um programa de TV em Fortaleza, no final dos anos 1960, antes de decidir se mudar para São Paulo para tentar a carreira de cantora e estudar Comunicação. Quando chegou em São Paulo, foi morar com uma irmã e mais duas amigas em uma república, quando soube que Belchior estava de partida para São Paulo, para também tentar a carreira. “Ele ficou em nossa república um mês, quando foi morar com um amigo. Todos nós gostavamos de falar com Belchior, que nunca largou seu cachimbo e de gosto pela pintura, fazia lindos quadros.”

Para Amelinha, Belchior tinha ficado distante nos últimos anos, estava casado com uma mulher que ninguém do grupo conhecia, e não falava mais com os amigos. “Ele participou de uma exposição de Aldemir Martins em Fortaleza, em 2009, mas estava distante. Não era mais aquela pessoa que gostava de fazer reflexões sobre a vida, sobre filosofia, sobre o tempo. Era outro homem, mas ainda tinha esperança de reencontrá-lo, recuperado das coisas que o atormentavam. Nunca achei que ele fosse morrer tão logo, era muito forte. Não o procurei mais, porque tínhamos que respeitar seu isolamento”, explicou a cantora, que gravou um disco em homenagem aos cantores cearenses, em 1977, Flor da Paisagem.

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