A tecnologia sempre moldou a música, modificada agora pelas mídias sociais e pelo streaming

A tecnologia sempre moldou a música, modificada agora pelas mídias sociais e pelo streaming

Os músicos também enfrentam distrações incontáveis: a internet acabou com o velho ciclo do isolamento no estúdio, seguido pela promoção do trabalho e as turnês de divulgação

Jon Pareles, The New York Times

02 Janeiro 2019 | 17h49

Um dos mais elogiados lançamentos de 2018 foi de Whack World, da cantora e rapper Tierra Whack: 15 canções inteligentes, marotas, todas acompanhadas por videoclipes, cada um com duração de um minuto. E fáceis de entender, expondo de maneira leve grandes ideias e, ao mesmo tempo, fazendo alusão a décadas de R&B e hip-hop. A música com frequência era básica, com os instrumentos em loop – mas soando de modo completo, não truncado.

Foi um tour de force suficiente para Whack ser indicada para o Grammy (que, com a típica confusão, indicou uma canção mais antiga e mais convencional, Mumbo Jumbo, para melhor vídeo de música). Whack World teve uma brilhante estratégia para combater a falta de atenção: música concisa e visual.

Porque, na verdade, quem tem tempo para música? Os que ouvem têm de trabalhar, ir à escola, ou ambas as coisas, e trabalhar na era da internet aumentou infinitamente o tempo costumeiro de nove horas por dia. E, como grande parte da música chega via streaming, controlada numa tela, ela também tem de compartilhar a atenção com tudo mais que está nessa tela: textos, mídia social, vídeos, alertas, notícias, jogos, buscas, mapas, e-mails a serem checados. Talvez ouvintes menos complicados consigam deixar todas essas distrações de lado, mas são minoria.

Os músicos também se deparam com distrações incontáveis. A internet acabou com o velho ciclo do isolamento no estúdio (para gravação de um álbum e depois a produção do vídeo), seguido pela promoção do trabalho e as turnês de divulgação. De início, a impressão é de que eles tinham se libertado disto, uma vez que a música era composta quando batia a inspiração, fosse de qualquer categoria ou duração.

Mas vieram as consequências inesperadas. Sem a expectativa da rotina de, digamos, um álbum com 12 músicas a cada dois ou três anos, a internet criou uma boca gigante insaciável, demandando constantemente mais conteúdo com menos pagamento em troca. O YouTube e o streaming tornaram cada música um clique e não mais uma compra – e nem mesmo um clique com autoplay, listas de reprodução pré-fabricadas e a “descoberta” algorítmica guiando o caminho. Nesse fluxo sem fim, a ideia de que uma música é a expressão de alguma coisa muito pensada, cuidadosamente sintetizada, estava condenada a se deteriorar.

Outro fator: a mídia social. A promessa inicial era de uma maior conectividade, uma maneira de chegar e responder aos fãs de maneira rápida e franca: nada de porteiros na entrada e nenhum filtro. Mas, para muitos candidatos a músico pop, o resultado foi o fim da reclusão criativa. E veio a pressão para estar sempre oferecendo material novo, musical ou não, tornando o ciclo promocional tão interminável quanto o dia de trabalho da internet.

Talvez um fragmento de uma canção ou um vislumbre de uma gravação de vídeo. Ou uma disputa no Twitter, um texto longo pronto para a mídia no Facebook ou um experimento de moda no Instagram.

Como marketing, é relativamente barato – e mais democratizante –, mas o potencial para distração não tem limite. Billie Eilish, compositora de 17 anos que lançou músicas irresistíveis sobre desejo e traição desde 2016, tem 24 milhões de ouvintes no Spotify e realiza turnês internacionais como artista principal no palco. 

Mas ela está para lançar seu álbum de estreia em 2019. Nesse ínterim, já conseguiu dois milhões de “likes” cada vez que posta uma foto no Instagram. Os músicos não estão isentos da métrica da “gamificação” e da satisfação instantânea que mantêm os usuários ligados na mídia social e o narcisismo que surge com frequência quando se tornam um artista e os torna ainda mais suscetíveis.

A tecnologia e os mecanismos de distribuição – a guitarra, o microfone, o LP, o rádio – sempre moldaram a música. Agora, a mídia social e o streaming estão recompensando novas habilidades que mudam rapidamente. É um tipo diferente de carreira que torna a música apenas parte de uma oferta de conteúdo cultural auditivo, textual, empresarial. O modelo surgiu com o hip-hop. Mas, na era da mídia social, o caminho para uma carreira é diferente. Cardi B é uma stripper que se tornou uma figura da mídia social insolente e transformou seu público num reality show de TV. Ela foi rápida e diligentemente aprimorando suas músicas, seu rap e suas letras, mas manteve a pleno vapor sua presença na mídia social. 

A celebridade pop sempre demandou algo de espetáculo, das sessões de foto para revistas aos videoclipes. Mas hoje a mídia social vem fazendo com que esse espetáculo se torne contínuo, pessoal e hiperativo em múltiplas frentes. Os artistas atraem atenção dentro de um mosaico de multimídia que é apresentado como uma novela combinada com um dispositivo de monitoramento: uma prova de autenticidade que pode se tornar judicial.

Daniel Hernandez, rapper conhecido como 6ix9ine, ostentou uma imagem de garoto duro com uma arma nos seus raps e na mídia social – ele tem 16 milhões de seguidores no Instagram –, mas acabou sendo acusado de atuar com gangues na vida real, com os promotores citando suas postagens nas redes sociais.

Para o artista pop do século 21, as músicas fazem parte dessa miscelânea, como também os romances e as separações, as rivalidades profissionais e as reconciliações e os incontáveis rumores e memes gerados pelos próprios artistas, seus fãs ou trolls. O que, por outro lado, vai alimentar suas próximas músicas.

O álbum Sweetner, de Ariana Grande, lançado em 2018, foi uma expressão de alegria exultando um romance erótico e feliz, e incluía uma faixa, Pete Davidson, homenagem ao seu namorado. Logo depois que eles se separaram, ela gravou um single, Thank U, Next, listando os nomes dos seus ex-namorados e prometendo que agora amaria apenas a si mesma. Seu videoclipe, com mais de 200 milhões de visualizações no YouTube, ridiculariza a desinformação da mídia social. É uma música pop da velha escola, combinada com um vídeo extravagante de música e dança, mas também o mais recente episódio de sua contínua saga pessoal.

Talvez em uma cultura voltada constantemente para a tela pequena, a música foi condenada a ficar à parte. As músicas que se tornaram enormes sucessos de streaming parecem sempre inacabadas, um riff que se repete e com poucas mudanças. Elas se enquadram no tipo de composição usado como música de fundo; são o tique-taque de uma trilha sonora da vida cotidiana. Mas há músicas que podem também nos impressionar com timbres nunca percebidos antes e ritmos que nos fazem balançar. E nos dizer coisas que não tínhamos certeza de saber.

E existe um público para elas. À medida que o valor da música gravada caiu para quase zero, as pessoas estão dispostas a pagar mais e mais a cada ano pelos concertos ao vivo – onde a música é o principal elemento e as distrações são mínimas. De acordo com dados da revista Pollstar, que promove concertos para as principais turnês de 2018, a receita bruta em todo o mundo foi de US$ 5,6 bilhões e o valor em média do ingresso subiu de US$ 84,63 em 2017 para US$ 93,65 no ano passado. Na América do Norte, o aumento foi ainda maior, de US$ 78,91 para US$ 92,50. A música ainda pode ser uma experiência primordial, extraordinária. Basta apenas guardar os celulares. (Tradução de Terezinha Martino)

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