Matt Roth/The New York Times
Matt Roth/The New York Times

A sutil e refinada abertura da temporada de 2015 da Osesp

‘Rapture’, de Christopher Rouse, foi o primeiro concerto, seguido da ‘Quinta Sinfonia, de Mahler, obra hipnótica

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S. Paulo

27 de fevereiro de 2015 | 16h15

“Essa é a música mais descaradamente tonal que já compus”, confessa o compositor norte-americano Christopher Rouse, 66 anos, a respeito de Rapture, ou arrebatamento, peça que abriu quinta, 26, na Sala São Paulo o primeiro concerto da temporada 2015 da Osesp. Ele nasceu em Baltimore, e entre 1985 e 1988 foi compositor residente da orquestra hoje dirigida nos EUA por Marin Alsop. Em 11 minutos, constrói um crescendo tecido numa espiral cheia de belas melodias e uma orquestração leve, transparente, de excelente fatura, até o poderoso acorde perfeito final. Além disso, não teme aspirar à beleza romântica. Entrega o que promete. Neorromantismo puro. 

Na sequência, Alsop repetiu, em sua quarta temporada como titular da Osesp, a Quinta Sinfonia de Mahler, obra empolgante e hipnótica com a qual fez seu primeiro concerto com a orquestra em 2011, já na condição de regente. É, sem dúvida, uma boa ocasião para se fazer um balanço deste período, longo o suficiente para avaliar se e como a Osesp evoluiu, em termos de criação de uma sonoridade própria e no amadurecimento em relação aos repertórios que vem enfrentando.

Como em 2011, também agora o trompete de Gilberto Siqueira brilhou desde o início solo do primeiro movimento. Uma ótima performance, estendida ao primeiro trombone e a todos os demais metais, inclusive as trompas. As madeiras demonstraram competência. O mesmo aconteceu nas cordas, empenhadas no Adagietto, movimento que costuma provocar “ós” na plateia, graças ao filme de Visconti.

É curioso que, no entanto, não se sintam grandes diferenças em relação às duas execuções com os mesmos intérpretes, a uma distância de quatro anos. O que escrevi em 2011, aqui mesmo neste espaço, poderia ser repetido hoje. Com parcos retoques.

Melhorou um pouco a transparência, que Mahler buscou a ponto de fazer alterações na partitura desde os ensaios pré-estreia em 1904, até sua morte, em 1911. Primeiro, ele amaciou a percussão, pesada demais na primeira versão. E seguiu perseguindo tirar o peso de uma polifonia cerrada. Claro que lá estão as valsas e melodias dançantes interrompidas por clarões trágicos, características de suas sinfonias.

Nesse sentido, Marin conseguiu esculpir melhor as frases, trabalhar com mais cuidado as dinâmicas e relação de sonoridades entre os naipes. Mas ainda falta a chama que distingue uma orquestra, seu DNA inconfundível. A obsessão mercadológica pelos grandes números – cerca de 300 concertos ao ano contabilizando todas as apresentações da Osesp e os “corpos estáveis” em 2015 – pode atrapalhar uma tarefa tão delicada e refinada quanto a que se propõe Marin Alsop em 2015. 

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