Eduardo Nicolau/ Estadão
Eduardo Nicolau/ Estadão

A redenção de Nasi e Scandurra

No show de reconciliação, o público não arredava pé, pedia bis o tempo todo

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2013 | 17h38

Nasi vestia uma camiseta preta onde se lia: "O que Johnny Cash faria?".

Bom, certamente Johnny Cash faria o mesmo que Nasi e Scandurra: deixaria finalmente a toca, colocaria sua raiva no case do violão e empunharia sua música intacta e precisa goela abaixo da noite de São Paulo.

Na grande noite da reconciliação, quarta-feira (30), na Vila Olímpia, os dois homens de frente do Ira!, o vocalista Nasi e o guitarrista Edgard Scandurra, ressurgiram juntos, ombro a ombro, após 6 anos de litígio. O palco era num local insólito - o Traffô, um daqueles clássicos bufês de eventos de casamento e formatura, com seus salgadinhos iguais (a empanada de carne e o patê eram irmãos gêmeos), seu espumante igual, seu DJ com a mesma seleção igual de eighties.

Era uma noite beneficente, o show existia para assegurar ajuda a uma escola de crianças com dificuldades diversas de aprendizado, a Escola Nane.

Scandurra tem um filho que é aluno ali. O músico usou então sua agenda de telefones para chamar uns amigos para tocar consigo (além de sua própria banda de estrada, com o filho Daniel no baixo e Felipe Mello na bateria, além da ajuda preciosa do teclado do veterano Johnny Boy).

O primeiro convidado era Arnaldo Antunes. Ele trouxe um clássico dos Titãs ao palco, O Que, um paredão concretista que desfrutou da sorte de contar com a credibilidade da guitarra de Scandurra. Outro amigo era Paulo Ricardo, que nos anos 1980 integrou uma banda de "primos ricos", como apresentou Scandurra: o RPM. Paulo começou com A Cruz e a Espada. O outro convidado penou com o microfone: era o trompetista Guizado.

A plateia adorou os dois estilos, o rock uspiano de Arnaldo e a velha fanfarronice de Paulo Ricardo, mas urrava cada vez que havia um intervalo: "IRA! IRA! IRA!".

Até que Scandurra anunciou: "Vou chamar agora um amigo. Um amigo com quem eu não falava desde 2007. A gente botou tudo na balança e viu que o que vale... Qualquer sentimento é bom no coração. Que errar é humano. Vou chamar um amigo, um tremendo de um cantor. Com vocês, Nasi!"

Nasi está tão roliço que parece que se tornou dois, mas o mais louco é que, se você o olha bem, enxerga claramente o mesmo moleque dentro daquele rosto enorme.

Nasi entrou e os dois se abraçaram. O cantor parecia que ia dizer alguma coisa, mas o guitarrista não lhe deu chance: sugerindo ansiedade, iniciou rapidamente os riffs de Flores em Você. Havia mágoa ali ainda, era evidente, mas a música era maior, imperativa, condicionadora.

Nasi, é evidente, já teria que cuidar do famigerado colesterol alto, mas na metade do show já começa a acenar para todos os lados pedindo um cigarro com o gesto dos dois dedos na boca. "Quero fumar", diz. "Quero fumar!", repete, já impaciente. Tanto insiste até que lhe dão um cigarro, mas ele não chega a desfrutar, a bituca apaga antes que ele termine o verso. Daria certo depois.

Impressiona o número de hits que a banda, iniciada com alguns moleques da Vila Mariana em 1980 e bolinha, eternos meninos da Rua Paulo (hoje cinquentões), desfila em pouco mais de uma hora de show. Os refrões são admiráveis pelo que têm de concentrado. Soam como um bloco de argila muito compacto, harmonioso, indescolável. Embora produto de uma era adolescente, não são nunca pueris os versos. "Você pensa que sou louco mas estou só delirando/Você pensa que sou tolo mas estou só te olhando/La lala lalalala", diz a letra de Núcleo Base, que é de 1985.

Cantados pela voz rouca e lamacenta de Nasi (que manteve a sua clássica expressão de ironia e êxtase do início ao fim da jornada), os refrões encontravam a lapidação na guitarra descomunal de Scandurra. Um complementa o outro de forma espantosa. O sotaque paulistano suburbano da dupla parece conferir um selo de autenticidade de cantina, com aquela conjunção chicletosa entre o N e o T na letra de Mudança de Comportamento ou o jeito Moóca que perpassava os versos de Envelheço na Cidade.

Tocaram duas versões: Foxy Lady, de Jimi Hendrix, e Você não Serve pra Mim, de Roberto Carlos (essa última com todo mundo junto no palco, momento irrepreensível e irrepetível do rock nacional).

O público não arredava pé, pedia bis o tempo todo. Já chegava perto da meia-noite e eles voltaram mais duas vezes. Ferozes e amistosos, Nasi e Scandurra ofertaram ali o que têm de melhor: sua simbiose compulsória, que os obriga a andar lado a lado mesmo quando parece que é a contragosto. Sua apresentação foi libertadora, como se tivessem serrado as grades de uma prisão. De agora em diante, não há mais fardo, só música.

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