A realização de Vanessa da Mata em Paraty

Primeiro registro ao vivo da cantora revela sua evolução como intérprete

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S. Paulo

12 Maio 2009 | 08h33

Desde que lançou o primeiro álbum, Vanessa da Mata alimentava a ideia de realizar um DVD. Mas nunca era como ela queria. Agora deu certo e ficou bem bom o resultado de seu Multishow ao Vivo (Sony Music, R$ 42,90), que difere do padrão de outros da série, por diversos motivos. Primeiro que o show foi gravado ao ar livre em Paraty, no litoral sul do Rio de Janeiro. Além do belíssimo cenário da cidade, o ambiente e a situação são propícios ao relaxamento. E neste primeiro registro ao vivo, Vanessa canta para um público favorável, diversificado e interessado, participativo, mas não inconveniente.

Havia também a possibilidade de Vanessa realizar a gravação em outra cidade histórica, Mariana, no interior de Minas, mas a distância e a dificuldade maior de acesso aumentaria muito o custo. "Tínhamos como opção também fazer no Rio ou em São Paulo, em casas convencionais, que era uma coisa que eu tinha bode. Por isso mesmo demorei tanto tempo pra fazer um DVD. Queria um lugar que remetesse à minha infância e que deixasse o Brasil à mostra. Que não tivesse a cara de muita maquiagem. Que fosse um DVD em que você se sentisse num domingo de sol." Além de fãs locais, outros foram de Rio e São Paulo, havia estrangeiros em férias, gente que nunca tinha ouvido falar dela, pescadores em barcos, o padre local, crianças brincando. "Coisas do cotidiano que numa casa de show não teria", diz a cantora.

O curioso é que choveu só no momento em que ela cantava Ai, Ai, Ai (em que canta "e tomar um banho de chuva"). "Estou brincando com essa situação, mas é verdade: Deus participou desse DVD. Teve gente que veio perguntar pra mim onde estavam as mangueiras, mas não era efeito. Caiu um toró só naquela música. Se continuasse a gente ia ter de parar."

É nítido como Vanessa está cantando melhor, porque vem fazendo aulas de canto. "Senti necessidade de estudar porque de repente estourou uma música, depois outra, o volume de trabalho aumentou tanto que seu eu não me cuidasse e não conhecesse mais meu ?aparelho vocal? ia ficar numa situação em que uma hora ia perder a voz", explica. "Tirei meu preconceito de fazer aula de canto, porque dizem que você fica muito frio. Percebi que daria pra conciliar a emoção com a técnica."

O show faz um bom apanhado do material de seus três discos, com ênfase maior no mais recente, Sim. O grosso do repertório é de sua autoria, mas até as interpretações de canções alheias, como Eu Sou Neguinha? (Caetano Veloso) e História de Uma Gata (Luiz Enriquez/Sergio Bardotti/Chico Buarque) são melhores do que as que registrou no segundo CD, Essa Boneca Tem Manual. "Não cabia mais ter um canto só introspectivo para músicas tão extrovertidas. Tinha de aprender a mudar a entonação pra cada música e saber o que fazer para não machucar a voz."

A estrada também é "professora" de Vanessa - no sentido de experiência artística ("você aprende muito, vai perdendo tabus. alguma timidez que te trava de certa maneira") e pessoal. "Adoro estrada, não tem coisa melhor pra mim. Adoro essa possibilidade de viver mais com viagens, ver outras culturas, me incomoda ficar em casa."

Da Jamaica ela foi buscar os bambas Sly Dunbar e Robbie Shakespeare, que já tinham gravado faixas de Sim com ela. No show do DVD os dois tocam e cantam nos reggaes Vermelho e Ilegais/You Don?t Love Me (No No No), além de Pirraça e Absurdo. Outras boas canções dos discos anteriores, como Não Me Deixe Só e Viagem (esta com citação de Mamãe Passou Açúcar em Mim, do repertório de Wilson Simonal) ressurgem renovadas.

Além de samba e reggae, gêneros em que vem se dando muito bem, Vanessa também quis privilegiar "ritmos mais discriminados", como carimbó, ijexá, guitarrada, caboclinho e outros de origem indígena, jamaicana e africana, como zouk. No DVD não fica bem claro a que ritmos Vanessa se refere, por causa de um corte em sua fala. "Isso é uma coisa que me incomodou muito, fiquei de consertar, mas era tanta coisa para fazer que acabou passando", explica.

Nos Extras

ESCOLHAS: Nos extras do DVD Multishow ao Vivo, Vanessa da Mata fala da infância, das influências da avó baiana, da relação com o palco, de Chico César. Há trechos de apresentações em diversas cidades, com cenas de uma bem-sucedida turnê européia. "Viajar, andar pelo mundo me alimenta muito." Ela também aparece cantando Boa Sorte/Good Luck com Ben Harper, além de Um Dia, Um Adeus (Guilherme Arantes) e As Rosas Não Falam (Cartola), em duvidosa versão, meio tango, durante a qual se emociona.

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