A rainha do samba que não fez um samba

Quando a Mangueira foi fundada, em 1928, Neuma Gonçalves da Silva já tinha 6 anos e pôde participar do primeiro desfile, orgulhosa, ao lado do pai, Saturnino Gonçalves - um dos integrantes do grupo que criou a mais famosa das escolas de samba. "Eu tinha de ser portelense, porque nasci em Madureira", dizia ela. "Mas meu pai já era mangueirense, eu não tive opção." Não era uma queixa: dona Neuma era, ao lado de dona Zica, viúva de Cartola, o símbolo maior da Estação Primeira. Verdade que a Mangueira tem muitos símbolos, de Cartola a Nelson Cavaquinho, de Carlos Cachaça a Zé Ramos, de Candinho a Jamelão, e admiradores de fora do samba do morro, de Noel Rosa a Tom Jobim e Chico Buarque. Uns fundaram a escola, outros fizeram sambas para a escola, outros cantam os sambas da escola, outros, ainda, cantam para a escola - dona Neuma não fazia nada disso. A palavra "símbolo" tem, aplicada a ela, o poder pleno de sua acepção. "A Mangueira é minha vida, a Mangueira é tudo o que for de bom no mundo", ela dizia. "Pense na melhor coisa da sua vida: é isso que a Mangueira significa para mim", afirmava, eternamente sorrindo, na entrada do morro, alguns metros acima da rua, na casa sempre cheia de crianças de quem ela sempre cuidou, a quem ajudou, a quem castigou, em quem bateu, a quem beijou. Um anjo da guarda que teve em casa o primeiro telefone da Mangueira. Foi em 1958. Um acidente de trem na estação da Mangueira matou 112 pessoas, feriu quase 200. O Rio ainda era o Distrito Federal. O prefeito era Negrão de Lima, que fez o que fazem os políticos: foi ao local do acidente. Quis um telefone para tomar providências. Não havia. "Vou mandar botar um em sua casa, Neuma", disse o prefeito. "Assim os moradores daqui não ficam isolados." Pagou as despesas e mandou que o número de dona Neuma fosse espalhado pelos hospitais, polícia e corpo de bombeiros. Clãs - A partir de então, os nascimentos, enterros eram sabidos pelo telefone particular, sim, mas comunitário, do anjo da guarda da escola. Ela arbitrou, encaminhou, orientou, defendeu gerações e gerações da chamada Nação Mangueirense. Queixou-se quando a escola se agigantou e quando foi tomada pelos bicheiros (que depois a deixaram). Segundo a jornalista Lena Frias, uma especialista em cultura negra, a Nação Mangueirense estruturou-se numa teia firme de entrelaces familiares e grupais. "A Mangueira estabeleceu clãs a partir dos quais a comunidade se reconhece", escreveu. "Há o poderoso clã de dona Neuma, filha de Saturnino Gonçalves, primeiro presidente da escola, casa de onde saíram mandatários. O influente clã de Cartola, comandado por sua viúva dona Zica, núcleo espiritual da Mangueira: Zica é cunhada de Carlos Cachaça." Eis a diferença: Zica é a viúva de Cartola, cunhada de outro fundador, Carlos Cachaça. Neuma era dona Neuma, valia por si, figura mais importante do morro pelo simples fato de ser quem era: sem nunca ter feito um samba, a rainha do reino do samba.

Agencia Estado,

17 de julho de 2000 | 20h25

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