A onda do sax que vem de Santos

Tarde fria no Morumbi, a fila na porta do estúdio onde Raul Gil grava seu programa dominical na Band está cheia de freqüentadoras assíduas, que aguardam bem-comportadas a hora de entrar. A poucos metros dali, do balcão de uma pequena lanchonete, o jovem saxofonista Caio Mesquita, um dos novos astros do show televisivo, retribui timidamente os acenos e beijos das fãs com as quais parece familiarizado. Lá dentro, logo depois, elas se transformam: pulam, uivam, aplaudem, se descabelam quando ele empunha seu sax alto e toca Wave, de Tom Jobim, fazendo merchadising para ringtone. ?Lindo, tesão, bonito e gostosão!?, gritam as tietes, dispensando a orientação do animador de auditório.A fama do bom menino, que alguns já chamam de ?o Junior do sax?, cresce a cada semana: ele é o fenômeno que vem passando à frente de hit makers como Bruno & Marrone, Ana Carolina, Ivete Sangalo e Marisa Monte em vendagem de discos. Nada de surpreendente se fosse pagodeiro ou mais um cantorzinho de axé, breganejo ou funk favela. Questões de gosto à parte, Caio é a onda que se ergueu da beira do mar de Santos, litoral paulista, para se tornar protagonista de um feito respeitável. Em meio ao caos do mercado e à decadência do nível de produção, o garoto de 16 anos levou a música brasileira instrumental ao topo da parada há duas semanas, com o CD de estréia, Jovem Brazilidade (Luar Music/EMI). O título com ?z?, as fotos do encarte, feitas em Salvador, e parte do repertório, incluindo bossa nova, visam ao mercado internacional. Nos próximos dias ele grava o clipe de Wave, que os executivos da EMI vão levar para uma convenção em Dublin. A música é a mesma que toca na abertura da novela global Páginas da Vida, mas em gravação dos herdeiros Daniel e Luiza Jobim. Ele garante que não está pegando carona. ?Meu CD saiu antes de começar a novela?, defende-se Caio, que estréia show de lançamento no dia 11 de outubro no Citibank Hall.Entre outros temas patentes, ele gravou clássicos de Vinicius de Moraes com Tom Jobim e Edu Lobo (Garota de Ipanema e Arrastão, respectivamente, esta com batida de drum?n?bass), Marcos e Paulo Sérgio Valle (Samba de Verão), Pixinguinha e João de Barro (Carinhoso); sucessos radiofônicos de Djavan (Lilás e Flor de Lis), Peninha (Sozinho), João Bosco (Papel Machê) e Ângela Ro Ro (Só nos Resta Viver). Com esse repertório inusitado para um adolescente, Caio vai receber disco de ouro por 125 mil cópias vendidas em dois meses, segundo Raul Gil Jr., produtor do programa do pai e descobridor de jovens talentos como Caio e a dupla Mayck & Lyan, sua nova aposta. Os dois garotos, da mesma faixa etária de Caio, acabam de lançar o CD de estréia interpretando canções de Nando Reis, Herbert Vianna e Tom Jobim, entre outros, em versões para moda de viola. De estilo arrumadinho e com ar de moços bons, disputam com Caio a preferência do auditório feminino, que formigueja de excitação. Vêm na mesma embalagem de Caio definida por Raulzinho: ?Ele é simpático, bonito, talentoso, tem carisma. É quase uma fórmula.? Filho único do casal Artur Maciel Mesquita e Rosa Almeida, Caio começou a dedilhar um piano aos 5 anos, hoje toca 13 instrumentos de sopro, teclado e cordas, e procura conciliar a música com os estudos em Santos. ?Ele sabe que se quiser seguir carreira internacional precisa estudar?, diz a mãe, que o acompanha nas gravações. Raul Gil estufa o peito para elogiar o garoto, que começou no programa em 2005, como acompanhante de uma caloura e passou à linha de frente. Agora tem quadro fixo todos os domingos, o ajuda a levantar o ibope do programa. ?Tenho orgulho de ver no nome dele nos jornais e revistas. Tocar no rádio não está tocando, mas está vendendo. O único programa em que ele aparece é o nosso, daí a prova da nossa audiência?, diz o apresentador. O estilo de Caio é um misto de Kenny G, de quem é seguidor no quesito suavidade, e David Sanborn, nos ataques fortes. Nos arranjos não há espaço para improvisos ou ousadia. Tudo é deliberado para atingir o gosto popular. ?A imagem que a gente passou no CD foi do feijão-com-arroz, que todo mundo faz, que o Kenny G faz. Mas as pessoas ficam até com um pouco de dor-de-cotovelo, porque é esse feijão-com-arroz que está vendendo. E não os grandes jazzistas que fazem coisas complicadíssimas?, justifica.Mas por que um repertório tão antigo? ?A gente direcionou o trabalho para um público de mais idade, com um certo conhecimento, mas por sorte acabou atingindo a todos?, diz. Caio rebate as críticas, apostando numa provável influência no gosto do público, o que abriria caminho para outros instrumentistas. ?Criticam dizendo que meu trabalho é de baixa qualidade, mas ninguém vê que mesmo assim as pessoas estão ouvindo música instrumental. E que isso vai favorecer outros músicos. Então pode até virem caras com trabalhos mais sofisticados e dar certo. Mas pouca gente consegue enxergar dessa maneira.?Jazz ele ouve porque ?é necessário para adquirir um pouco de conhecimento?, mas um projeto experimental está fora de seus planos. Pelo menos por enquanto. ?Quando meu nome for mais forte no mercado, quem sabe.?

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