A obra de Nana Caymmi, cifrada e decifrada

Cantar como Nana Caymmi é difícil, mas agora ficou fácil tentar imitá-la. O songbook O Melhor de Nana Caymmi, que a editora Vitale lança hoje na Livraria da Travessa, com a presença da cantora e da filha dela, Stella Caymmi, que escreveu sua pequena biografia, abre uma série quase inédita nesse tipo de publicação: a compilação de sucessos de intérpretes, com os arranjos das músicas em seus lançamentos. Só Elis Regina teve esse privilégio na mesma editora, especializada no repertório de compositores brasileiros. O livro tem 3 mil exemplares e custa R$ 40."É uma alegria essa homenagem em vida, num país onde a vida pessoal chama mais atenção que nosso trabalho", comemora Nana. "Não escolhi as músicas, a seleção foi de Stella e do Luciano Alves (responsável pelas cifras e partituras da coleção), que não deixaram nada importante de fora. Estamos todos de parabéns. A Vitale, pela iniciativa, e eu, por ter uma filha como a Stella, que cuida da nossa memória musical."O livro traz 30 canções: sucessos antigos como Desenredo (de seu irmão Dori e Paulo César Pinheiro) e Beijo Partido (de Toninho Horta) e mais recentes, de trilhas de novelas, como Resposta ao Tempo e Suave Veneno (ambas de Cristóvão Bastos e Aldir Blanc). Há uma só do pai, Dorival (Só Louco), e quatro dos irmãos, Danilo e Dori. As cifras para teclado e violão respeitam a melodia e a harmonia inventadas pelos compositores. "Mudar seria como acrescentar uma flor a um quadro de Volpi. É desrespeitar a obra alheia. Morro de vergonha quando vejo alguém fazendo isso", afirma Nana. "Em música, não se pode pegar atalhos."Nana dá dicas para alcançar sua mistura de emoção e exatidão, em disco ou ao vivo. "É preciso ficar atento para os graves não saírem como arroto e colocar a voz nos agudos para não ter dor de garganta no dia seguinte", ensina. "Principalmente, não se deve destrambelhar. Quem gosta de música toma cuidados, não é difícil. Minhas netas, que são crianças, cantam o repertório da Sandy, igualzinho. Quando tinha a idade delas, eu queria uma roupa igual à da Branca de Neve e um beijo do príncipe, mas sem precisar dormir."Os 43 anos de atividade de Nana são contados no songbook por Stella Caymmi, (biógrafa também de Dorival), que incluiu uma cronologia da carreira (iniciada em 1960, com a gravação de Acalanto e Rosa Morena, de Dorival Caymmi, num disco de 78 rotações) e ótimas fotos dessas quatro décadas em que ela passou de cantora cult, adorada pelos poucos que a conheciam, a ídolo nacional, que lota grandes casas de espetáculo, ganha discos de ouro. Há também uma lista dos 43 discos que Nana lançou, 32 originais e 11 compilações.É claro que o sucesso popular sempre foi sua meta, mas ela se orgulha de não ter traído seus princípios. "Nesse livro fica evidente que fui honesta e fiel à música em toda minha carreira. De uma forma que nem sempre consegui em outras áreas da vida", admite ela. "Conseguiram colocar as canções importantes no livro. Ficou melhor que aquelas revistinhas em que aprendi a cantar." Em tempos de balanço de carreira, Nana conta que não pretende gravar disco novo em 2003, mas sonha fazer um show com os irmãos Danilo e Dori Caymmi, reunindo o repertório de cada um e os três cantando as músicas do pai. "Não trabalhei bem O Mar e o Tempo, só com músicas dele, porque tive de cuidar de meus pais, que estão muito velhinhos, mas o Dori, que mora em Los Angeles, chega em abril e vamos marcar as datas para esse show", adianta ela. "Papai está chegando aos 90 anos (completa 87 em 30 de abril) e mamãe adoraria ter o Dori por perto este ano." Seria um show histórico. A última reunião da família Caymmi foi nos anos 80, com os Jobins, em espetáculo e disco antológicos.

Agencia Estado,

26 de março de 2003 | 15h55

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