A música humanitária de Jordi Savall ganha show memorável em SP

Projeto do genial catalão de 75 anos enriquece apresentação 

João Marcos Coelho , ESPECIAL PARA O ESTADO DE S. PAULO

04 Setembro 2015 | 06h00

É impossível descrever a inteligência, o rigor e o sentimento de euforia provocado pela beleza que a música de Jordi Savall provocou no público do concerto de terça, dia 1.º, na Sala São Paulo. O genial catalão de 75 anos comandou o Hespèrion XXI e o grupo mexicano Tembembe com sua querida viola da gamba, que lhe deu fama mundial desde 1991, com o filme Todas as Manhãs do Mundo. 

Com ele não há piloto automático. Cada projeto ou apresentação tem motivação humanitária, põe o dedo nas feridas do mundo contemporâneo, denuncia guerras fratricidas, preconceitos raciais, injustiças. Este impulso o leva a agir como os descobridores do século 16 ibérico. Viaja pelos sete mares, montando projetos musicais que caminham na contramão do itinerário habitual da música. 

Savall quer – e consegue com talento e muita pesquisa – abraçar todas as músicas do mundo nos momentos em que elas nasceram, séculos atrás, e trazê-las para o mundo contemporâneo. O concerto de terça mostrou como o eixo ibérico foi a ponte de transplante e criação de novas identidades musicais mestiças entre a música do velho mundo e a dos novos que se descobriam. Tudo regado a realidade do século 21. Por exemplo, numa “folia”, Leopoldo Novoa improvisou letra comparando México e Brasil, unindo-os, corretamente aliás, na pobreza. E, se ouvi direito, avisou que a música nos salva. De seu lado, Savall improvisou diabolicamente sobre ostinatos. O improviso e as referências à vida de hoje tornam atualíssima sua música. Mas ele é também o instrumentista extraordinário, capaz de um memorável solo de gamba sobre formas celtas na abertura da segunda parte do concerto.

Ótimos seus parceiros do Hespèrion XXI e do Tembembe nas contagiantes “folias antiguas e criollas: do mundo antigo ao novo mundo”. Destaque para o sensacional Andrew Lawrence-King na harpa barroca espanhola; e para Leopoldo Novoa, no marimbol, japara juasteca, queixada de cavalo e harpa llanera.

As fulgurantes folias engajadas que invadiram a Sala São Paulo são de 2010. No ano anterior, convocara José Saramago para comentar as sete palavras de Cristo na Cruz de Haydn. Guerra e Paz, livro CD de 2015, mostra a trilha sonora do sangrento século 17 europeu, período da guerra dos 30 anos. 

Seu atual projeto, Rotas da Escravidão da África para as Américas, testemunha o nascimento do preconceito racial e denuncia o crime histórico contra os negros e sua música riquíssima. “As potências atuais, que tanto se beneficiaram da mão de obra gratuita”, diz, “deveriam refletir sobre sua responsabilidade na situação dos povos africanos e propor soluções mais humanas e eficientes para os graves problemas da emigração clandestina no sul da Europa.” Participa dele a cantora e professora na Universidade Federal da Paraíba Maria Juliana Linhares. Entre as músicas brasileiras, Jongo da Serrinha, Saí de Casa, ciranda de Escurinho; Canto de Guerreiro, caboclinho de Erivan Araújo; e Bom de Briga, maracatu de Paulo Ró e Águia Mendes. Oba, entramos na rota de Savall. 

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