A música de Cartola ao vivo pela última vez

Não há no meio musical quem ignore a excelência do mestre Cartola. Suas qualidades como poeta e melodista já foram inúmeras vezes enaltecidas pela crítica e comprovadas pelos diversos intérpretes de sua obra, desde Carmen Miranda, passando por Elizeth Cardoso, até Marisa Monte (falando apenas em grandes cantoras brasileiras). No entanto, o Brasil cultiva um perverso hábito de negligenciar e esquecer dos seus grandes valores, o que levou o produtor João Carlos Botezelli, o Pelão, a arquitetar o relançamento em CD de uma de suas belas obras, Cartola Ao Vivo, a fim de trazer à tona sua memória, sua maestria.É estranho imaginar que um dos maiores nomes da nossa música tenha de lutar postumamente pelo reconhecimento que lhe fora tão árduo conseguir em vida. Cartola foi um daqueles exemplos de genialidade quase anônima até os seus 53 anos de vida, quando, depois de ser pintor, pedreiro, vigia e lavador de carros, fundou o restaurante Zicartola (com sua segunda esposa, Dona Zica), que se tornou um efervescente ponto de reunião de estudantes, intelectuais e artistas, do morro e do asfalto, em meados da década de 60. Das noites do Zicartola partiram para a consagração nacional os jovens Paulinho da Viola e Élton Medeiros, sem contar os já veteranos Zé Kéti, Nélson Sargento e o próprio Cartola, que a partir dali alcançaram o merecido respeito. Foi no Zicartola que os bossa-novistas da zona sul carioca tiveram contato com os sambistas do morro, e foi lá que Nara Leão, a musa da bossa-nova, colheu boa parte do material gravado no seu primeiro LP, ?Nara? (1964), álbum que apresentou Cartola e os demais para o grande público. Cartola, que fora um dos fundadores da Escola de Samba da Mangueira, além de um compositor lendário em seu meio (embora pouco conhecido fora das rodas de samba), pôde, enfim, dedicar-se exclusivamente à música e mostrar sua majestade. Cartola Ao Vivo é o único registro disponível dos shows desse célebre sambista. A gravação foi feita justamente na última apresentação em público de Cartola, em 30 de Dezembro de 1978, no Ópera Cabaré, em São Paulo, e lançada em LP após a sua morte (ocorrida em novembro de 1980).Pelão foi também o produtor do primeiro LP da carreira do mestre, tardiamente descoberto. Para ele, que acompanhou de perto o velho amigo desde seu ressurgimento na cena musical brasileira, esse CD tem o mérito de trazer o melhor registro da voz seca de Cartola, afora seu inquestionável valor histórico.Cartola Ao Vivo contém alguns dos inesquecíveis sucessos do autor, a exemplo de As Rosas Não Falam, O Sol Nascerá e Inverno Do Meu Tempo , cantados pelo sambista e com acompanhamento de um competente regional. Sem as excessivas estrepolias de palco, tão em voga hoje em dia, com elegância e com respeito, Cartola comoveu a platéia daquela perdida noite de 78 (o que se pode ouvir claramente nas faixas de Cartola Ao Vivo) e certamente comoverá aqueles que agora forem se entregar ao prazer de sua audição. É nessa emoção compartilhada por gerações e gerações que está o sentido da eternidade do gênio.

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