Daniel Teixeira/ Estadão
Daniel Teixeira/ Estadão

A modernidade de Stravinski em noite de Beethoven burocrático

Peças do autor russo foram o ponto alto do concerto da Osesp na última quinta, regido por Celso Antunes

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S.Paulo

28 de março de 2014 | 22h40

 Pobres de nós, melômanos do século 21, que ainda precisamos de catequeses verbais para ouvir sem sustos um compositor como Igor Stravinski. Isso acontece porque, embora seja amplamente conhecido, tanto quanto um Picasso, não é exatamente compreendido. Os ouvidos dos frequentadores de concertos captam que isso é moderno porque desafia as percepções e valores da arte do século 19. A quantidade de assentos vazios deu a medida de que o temor de Stravinski superou parcialmente o desejo de (re)ouvir Beethoven.

Afinal, por que Stravinski soa tão moderno em 2014? Ora, argumenta corretamente Robin Maconie, “a mentalidade que caracteriza a música de John Adams, Glass, Reich e outros como contemporânea só porque estão vivos repudia a música de Schoenberg ou Stravinski como passada ou menos relevante simplesmente porque estes gênios não estão vivos (...) é mais fácil substituí-los pelos atuais imitadores da música do século 18” (e medíocres sanguessugas da música popular, acrescento).

Canticum Sacrum, de 1955, e Requiem Canticles, de 1966, são pequenas obras-primas. Adotam o serialismo de Schoenberg, “seu inimigo”, disse Celso Antunes. Ora, se Schoenberg sempre nutriu ódio pelo russo, este sabia diferenciar a pessoa de suas opiniões e levar em conta só suas posturas conceituais. Depois de meio século de brigas públicas mal disfarçadas, candidamente assumiu a ferramenta composicional de seu maior oponente estético. E a manejou possivelmente melhor que o inventor do serialismo. Fez do método mero guia flexível de rigor e de sua invenção. No Cântico, a mais monteverdiana de suas obras, o erotismo explicita-se em “Surge aquilo”, com o tenor assumindo-se ora como homem, ora como mulher, sob refinada e escura instrumentação de cordas ressoando com a flauta e a harpa. Genial a “Brevis motus cantilenae” onde barítono e coro afirmam, em tradução deliberadamente errada do texto de Santo Agostinho, “Creio no absurdo”, em vez de “creio porque é absurdo”. No “Ille autem profecti”, afina-se com o então jovem Luigi Nono no final em espelho invertido da parte inicial.

No Requiem Canticles, tenta capturar o tempo (“o tempo não passa, nós é que passamos”). Por meio de nove haikais, provoca e inova de maneiras impossíveis de se descrever em duas ou três linhas. Muito bom o quarteto vocal solista, com destaque para a contralto Stella Doufexis e o baixo Mark Stone. O maior elogio vai para o Coro da Osesp, cada vez melhor em seus 20 anos de vida comemorados no concerto com homenagem à coralista Mariana Valença (pena que sequer tenha sido citada a construtora da qualidade excepcional do grupo, Naomi Munakata). Celso Antunes tem gestos largos e clareza, mas deixou várias vezes orquestra e coro cobrirem os solistas.

É incrível, mas a Missa opus 86 de Beethoven ficou em segundo plano, numa execução quase burocrática. É que todo o estoque de adrenalina havia sido investido em Stravinski.

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