Gal Oppido
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‘A minha personalidade é dramática’, diz a atriz e cantora Cida Moreira

Para comemorar 70 anos de vida e 45 de carreira, a intérprete ganha uma tela e uma canção em sua homenagem

Danilo Casaletti, Especial para o Estadão

13 de dezembro de 2021 | 20h00

Minutos antes de atender a ligação da reportagem do Estadão, a cantora e atriz Cida Moreira havia acabado de ministrar uma aula de preparação vocal. Pediu alguns instantes para se preparar e, depois, se dispôs a falar sobre as 7 décadas de vida recém-completadas.



Cida está feliz especialmente em função dos dois presentes que ganhou. O primeiro é a canção que o cantor e compositor paraense Arthur Nogueira escreveu para ela. 

Batizada de A Nobreza do Não, a canção fala sobre a perenidade da obra da artista e a traduz nos versos: “sou melhor quando eu canto, essa é virtude que deixo no ar”.

“É a percepção do Arthur em relação a mim. Reconheço-me completamente nela. Eu só sou legal quando eu canto, seguramente. Quando não canto, sou uma senhora de 70 anos, mãe. Uma mulher normal. Estou muito bem com a idade que tenho”, diz Cida. A música foi gravada pela cantora e lançada como single nas plataformas digitais pela gravadora Joia Moderna.

A outra recordação que Cida ganhou é o retrato que o fotógrafo e pintor Gal Oppido lhe ofereceu. Cida foi ao estúdio de Oppido para que ele fizesse algumas fotos para a data. Em determinado momento, o artista sentou-se no chão do estúdio, e fez a obra. Em 20 minutos, segundo Cida. 

Essas novidades, mais suas atividades como professora, entre outros projetos, e, sobretudo, o fato de ter passado pela pandemia com saúde, exorcizam sérios problemas que Cida teve em 2019, quando passou por uma cirurgia de coração. 

Ela, inclusive, aproveita para refutar uma declaração que deu há cerca de 3 anos, quando disse que encerraria a carreira nos palcos. “Foi algo tolo. Eu não conseguiria parar. Sobretudo agora, neste momento que o Brasil precisa da arte. Não tenho, claro, nenhum plano mirabolante - como não tenho há muito tempo. Mas, se eu me aposentar, morro de tédio e de tristeza”, diz.

Recentemente, Cida participou, ao lado de Ayrton Montarroyos e do ator Cássio Scapin, do show O Som do Pasquim, em São Paulo, no qual, com plateia, cantou músicas como Ouro de Tolo, sucesso de Raul Seixas, e Mãe, de Caetano Veloso.

Para o próximo ano, Cida planeja apresentar o show do disco Um Copo de Veneno, gerado a partir de um programa especial em 10 episódios exibido pelo Canal Brasil entre janeiro e março de 2020, inspirado nos musicais do alemão Bertolt Brecht, a quem ela já dedicou um disco, em 1988.

Em clima de cabaré, uma marca de seu trabalho, Cida interpreta onze canções, quase todas inéditas em sua voz. Entre elas, Efêmera, de Tulipa e Gustavo Ruiz, a baladona Você Me Vira a Cabeça (Me Tira do Sério), sucesso de Alcione, e Eu Sou a Diva Que Você Quer Copiar, hit de Valesca Popozuda.

 


 

Discos e mitos

Além dos 70 anos de vida, Cida também comemora os 45 anos de carreira. Bom, isso se for levado em conta sua estreia no teatro profissional, na segunda metade dos anos 1970. Isso porque, aos 6 anos, na cidade de Paraguaçu Paulista (interior de São Paulo), onde morou dos 2 aos 14 anos, após a família se mudar da capital, ela cantou no rádio. Estreou com o samba-canção Serra da Boa Esperança, de Lamartine Babo. Ia à missa e, depois, ao programa de auditório. À época, já estudava piano.

Aliás, o teatro tem importância fundamental em sua formação. Primeiro o amador, que ela levava concomitantemente à faculdade de Psicologia, na qual ela se graduou e atuou durante sete anos. Depois, no teatro profissional. Na sua obra, é perceptível que música e dramaturgia andam juntas, sobretudo o drama.

“Bom, eu sou dramática desde sempre (risos). O drama é a minha vida. Não que ela seja um drama, claro. Mas minha personalidade é dramática. Desde pequena já diziam que eu era exagerada”, diz.

O primeiro álbum de Cida Moreira, Summertime, de 1981, é justamente o mais cultuado de sua carreira. Ele foi originado a partir do show que ela protagonizou no final de 1979, Summertime - Um Show pra Inglês Ver, que teve direção de José Possi Neto.

A ideia de Cida era homenagear Janis Joplin, morta em 1970, uma das grandes intérpretes da canção que dá nome ao disco - um standard do jazz, composição de George Gershwin, Ira Gershwin, DuBose Heyward e Doroty Heyward. “Para mim, Janis foi um paradigma absoluto, no sentido de uma pessoa que quando está no palco se transforma em algo imensamente maravilhoso”, diz.

No repertório, ainda estavam outros clássicos como All of Me, California Dreamin e She’s Leaving Home. Do cancioneiro brasileiro, Cida gravou nesse álbum Gota de Sangue, da então iniciante Angela Ro Ro, Vapor Barato, de Waly Salomão e Jards Macalé, e Geni e o Zepelim, de Chico Buarque.

Sobre a canção de Chico, há uma história de que a versão de Cida havia sido censurada à época, o que a cantora desmente com veemência. “Não. É folclore. O que a censura não deixou, no início, era dizer ‘joga bosta na Geni’. Tinha de ser ‘joga merda na Geni’. Mas eu cantei bosta”, diz a cantora, que participou da peça Ópera do Malandro, de 1978, para o qual a música foi composta. 

Summertime foi gravado ao vivo, em voz e piano, no Teatro Lira Paulistana, casa que ficava no bairro de Pinheiros, em São Paulo, e ficou conhecida como a casa da Vanguarda Paulista. Sobre o espaço, Cida chama atenção para o que ela chama de “idealização”.

“Há uma mitificação. Vamos falar sério. Por que o Lira juntou uma geração que estava começando entre o fim dos anos 1970 e começo dos anos 1980? Porque não cobrava aluguel, meu amor! Você rachava a bilheteria com eles. Era um teatro gostoso e barato. E foi importante. Entretanto, nunca foi um movimento. O movimento foi individual, de Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção e Luiz Tatit. Aliás, nos chamavam de ‘alternativo’, ‘underground’, palavras que eu odeio”, afirma. 


LIGAÇÕES. Trinta anos depois de prestar a homenagem a Janis, Cida, em seu álbum A Dama Indigna, se rendeu ao talento de Amy Winehouse (1983-2011) e fez sua versão de Back to Back. “É incrível a ligação que tenho com essas duas mulheres. Estão ligadas no meu coração, pelo mundo da arte”, diz.

Cida, aliás, tem preferido dialogar com a geração mais nova, como, por exemplo, com Arthur Nogueira, que lhe deu a música comemorativa dos 70 anos de vida. Ela ainda cita os cantores e compositores Thiago Pethit e Hélio Flanders. 

“Estou mais perto deles. Não me alimento mais da minha geração. Com algumas exceções, ela não envelheceu tão bem quanto deveria. Um papo de ‘ah, essa nova geração não sabe o que a nossa passou’. Difícil é para todo mundo. O Brasil nunca foi fácil. Há um certo ranço intelectual, um julgamento. Não congrego com esse tipo de pensamento. Não que eu seja uma fofa, pois não sou. Mas não gosto”, diz.

Cida também demonstra simpatia pelas cantoras brasileiras do funk e do sertanejo pop. “Outro dia me perguntaram o que acho da Ludmilla. Ela é extraordinária. Anitta... São meninas muito corajosas que estão aí, realizando”, diz. 

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