Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

'A mediocridade sempre volta', diz Ivan Lins, que faz show em São Paulo

Canções do artista se tornam hits nas redes como manifestações políticas

Danilo Casteletti, Especial para o Estado

26 de fevereiro de 2021 | 05h00

Não é difícil ver versos de músicas de Ivan Lins em posts de redes sociais. A obra do compositor, que em 2020 completou 50 anos de carreira e 75 de vida, permanece pungente e induzindo a reflexões. Gravado por nomes como Elis Regina, Nana Caymmi, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan e Sting, Ivan não se cala diante de questões que o atormentam, como o governo Jair Bolsonaro, a corrupção e a demonização da classe artística. “Os fatos que essas letras trazem se repetem. A corrupção, o mau político, a grosseria, a estupidez e a mediocridade sempre voltam”, diz.

O compositor, que atualmente se divide entre Lisboa e Petrópolis, no Rio, estava na capital portuguesa quando a pandemia começou. Teve de esperar para voltar ao Brasil e, aos poucos, retomar as atividades. Um disco só com músicas em parceria com Vitor Martins está em compasso de espera. A turnê que comemoraria as cinco décadas de atividade, também.

Nesta sexta, 26, ele se apresenta no Teatro J. Safra, em São Paulo, que terá 40% de sua capacidade de público disponível, acompanhado apenas pelo tecladista Marco Brito. No repertório, canções como Vieste, Bilhete e Iluminados. “Vou cantar o que este momento pede: canções mais líricas, de letras mais intensas. Essa será a minha mensagem. O povo brasileiro tem uma carência afetiva imensa”, diz.

Você não fez live, apenas uma participação na que comemorou seu aniversário. Por quê?

Fiz pouca coisa neste tempo de pandemia. Dois ou três shows em Portugal. Alguns passaram pela internet. Em dezembro, fiz uma apresentação com a Jazz Sinfônica de São Paulo, metade dela, e o MPB4 que foi linda. Foi o único show com público que fiz no Brasil até agora. Preciso sentir o calor humano, a respiração das pessoas. Isso é essencial para a arte.

Como será o show desta sexta?

Vai ser em um formato que fiz poucas vezes. Eu e o meu tecladista, Marco Brito, com um repertório um pouco diferente do show que eu fazia em 2019. Vou cantar o que este momento pede: canções mais líricas, de letras mais intensas. Essa será a minha mensagem.

O brasileiro está carente?

Sim. Estamos precisando demais de amor. O povo brasileiro é carente. Tem uma carência afetiva imensa.

Os versos de músicas suas como Cartomante e Deixa Eu Dizer passaram a ser usados nas redes sociais para expressar a insatisfação política e social no Brasil. Você acompanha?

Sim, Desesperar Jamais, Bandeira do Divino, Novo Tempo também. A história é cíclica, igual à moda. Essas letras todas são do Vitor Martins. Ele sempre escreveu com essa atemporalidade, sabe que os fatos que essas letras trazem se repetem. A corrupção, o mau político, a grosseria, a estupidez e a mediocridade sempre voltam. Formigueiro, de 1978, é outra que casa direitinho todos os anos. Ela fala da corrupção na época da ditadura, quando se roubava muito, e os militares faziam vistas grossas para manter a maioria no Congresso e aprovar os projetos dentro daquela democracia alegórica que o País tinha.

Você estava preparando um disco chamado Canções de Rua, Canções de Amor, com letras do Vitor Martins. Ele está pronto? 

Está parado. Esta coisa da pandemia nos tira um pouco o ânimo. Quem tem 35, 40 anos, até se anima em produzir mais. Quando você bate nos 50 anos de carreira como eu, acha que já fez muito, quer selecionar mais. Embora tenha composto muita coisa neste período. Inaugurei uma parceria nova com Joyce e Marcos Valle, outra com Valle e a Zélia Duncan. Estou batendo bola com outros parceiros. Esse disco com o Vitor, vou esperar. Gosto de compor presencialmente. Ir com o Vitor para uma fazenda para fazer as canções juntos, como sempre fizemos.

Você tem atuado na defesa dos direitos autorais. O meio digital tem sido correto com autores e intérpretes?

O direito autoral se modernizou e está respondendo muito bem à classe musical. Porém, há um problema que as sociedades de classe e o Ecad sofrem que é a arrecadação nos meios digitais. Com a internet, ela caiu drasticamente. Vivemos de show, do direito de execução. Com a pandemia, sem apresentações ao vivo, ficou tudo muito complicado. As plataformas digitais nos pagam uma cocada e uma mariola. É totalmente injusto. O compositor ficou no final da fila. Todo mundo ganha dinheiro e, no final, o que sobra, vai para o compositor. Deveria ser o contrário. Os compositores deveriam ganhar mais que todo mundo e não ficarem pobres. Somos nós que geramos a riqueza das plataformas, editoras e gravadoras, enfim, de todo o mercado. 

Mesmo com todos os seus discos nas plataformas e com tantas músicas gravadas por outros cantores você recebe pouco?

Sim. Mesmo das minhas músicas mais gravadas. O que chega são 5 centavos. Uma vergonha. Não só comigo, mas com todos os compositores.

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