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A maldição do samba

Wilson Baptista, enfim, ganha seu lugar na história

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2014 | 02h04

O insulto foi pesado, pegou Noel Rosa no contrapé e o abateu no centro do tablado. Sua feiura era pública, mas chamá-lo de monstro já era demais. Wilson Baptista tinha sangue nos olhos depois de perder o sexto round, quando Noel lhe mandou Palpite Infeliz direto nas têmporas. Wilson havia golpeado antes, atingindo Conversa Fiada no coração do oponente, dizendo que sua Vila Isabel era um embuste. Um giro rápido depois de Noel quase finalizá-lo com o poder destruidor de Feitiço da Vila. De revanche em revanche, a grande batalha do samba vinha de 1933, quando Wilson compôs Lenço no Pescoço e Noel, pensando que fosse com ele, resolveu chamá-lo para o tapa em Rapaz Folgado. Mais de 80 anos depois, o juiz levanta o braço de Noel Rosa e deixa um farrapo humano caído no canto do ringue.

A briga com Noel foi o que sobrou de Wilson Baptista. Uma injustiça histórica a um neto de avô abolicionista de Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, que criou 720 músicas com 400 delas gravadas, quase o dobro de Ary Barroso. Um semiletrado que só escrevia para fazer versos cantados por Francisco Alves, Carmen Miranda, Mario Reis, Dircinha Baptista, Orlando Silva, Linda Baptista, Moreira da Silva, Odette Amaral, Sylvio Caldas, Aracy de Almeida, Cyro Monteiro, Aracy Cortes, Luiz Barbosa, João Gilberto, Anjos do Inferno e Bando da Lua. Um homem que vendia música para acalmar o estômago e que cometeu o pecado de brigar com Noel Rosa.

Quando o bonde dos anos 70 passou, com João Nogueira e Beth Carvalho puxando para cima do vagão a velha guarda de Cartola, Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, Wilson Baptista não estava no ponto. Mesmo a gravação de Paulinho da Viola, que em 1972 incluiu Meu Mundo É Hoje no antológico A Dança da Solidão, não pareceu surtir efeito em uma possível revalorização. Wilson havia morrido em 1968 com o coração triste e inchado, em um leito do Hospital Souza Aguiar, quatro dias depois de completar 55 anos. Seu nome seria lembrado, na melhor das hipóteses, como "o homem que desafiou Noel" e, na pior, como "o homem que pegou carona no sucesso de Noel". Apagava-se com isso décadas de bons trabalhos prestados ao samba que nascia na Lapa, na Praça Tiradentes, no Café Nice. Enterrava-se assim a história de um sambista que, muitas vezes, andou fora da curva traçada pelo próprio Noel.

Um trabalho de fôlego do pesquisador Rodrigo Alzuguir recoloca agora o desconhecido ao lado dos ilustres. Wilson Baptista - O Samba Foi Sua Glória! (583 páginas, editora Casa da Palavra) terá lançamento amanhã, às 19 h, na Brasserie Rosário, no centro do Rio. A obra resulta de uma pesquisa iniciada em 2001 que rendeu frutos ao longo do caminho. Em 2010, Rodrigo, também ator e pianista, produziu um musical de bolso chamado O Samba Carioca de Wilson Baptista. No ano passado, quando o compositor faria 100 anos (o esquecimento de seu centenário é sintoma de indigência), um álbum trouxe a trilha do espetáculo. Agora, sai o livro, patrocinado pela Natura, com um texto bem encadeado, leve, sem o empilhamento de aspas ou excesso de citações de fontes. Apesar de ser a biografia de um estreante no gênero, parece se tratar das linhas de um veterano. "Este é um livro que eu gostaria de ter escrito", diz Ruy Castro, no texto da contracapa.

As vidas paralelas do universo do samba dos anos 30 e 40 ganham atenção especial. "Gosto das pequenas histórias", diz o autor. O malandro à moda antiga Meia Noite é uma delas. O motorista de táxi Germano Augusto é outra. Germano, português bem relacionado, era a ponte que ligava as novas composições dos sambistas aos cantores de calibre da época. Em troca de fazer o aviãozinho, tinha seu nome colocado como coautor, o que lhe garantia royalties para sempre. Outro notável desconhecido é Miguel Baúso, chefe de claque do Teatro Recreio, menos esperto do que o motorista português, que sonhava com a carreira de cantor. Um "comprositor" nato, que guardava em um baú as músicas que adquiria nos balcões de negócio da noite. Às vezes era enganado e comprava o mesmo samba duas, três, quatro vezes.

Wilson dizia que o pior inimigo do sambista era o estômago. "Ele vendeu muitas músicas. Deve ser este um dos motivos pelos quais passou a ser discriminado", diz Rodrigo. Nunca dividiu a função de músico com outra profissão. Era sambista em tempo integral, o que o fez produzir muito e não ter pudores em mergulhar na bacia das almas. Uma música sua poderia ganhar coautoria a qualquer momento, desde que lhe pagassem por isso.

Apesar da pouca instrução, evocava, sempre que sentia necessidade, sua profundidade absorvida de escritores e jornalistas boêmios. Ao fazer o samba Chico Brito, um contraventor do bicho e das drogas que traíra o destino de menino religioso e aplicado, citava o pensamento do filósofo Jean-Jacques Rousseau: "Se o homem nasceu bom, e bom não se conservou / A culpa é da sociedade que o transformou." Mas a caixinha de fósforo, único instrumento que Wilson sabia tocar enquanto compunha, começou a sair do ritmo em um momento que deveria ser de glória.

Em 1933, ele não estava nem aí para Noel Rosa quando proclamou o orgulho de ser malandro com Lenço no Pescoço. "Meu chapéu do lado / Tamanco arrastando / Lenço no pescoço / Navalha no bolso / Eu passo gingando / Provoco e desafio / Eu tenho orgulho / Em ser tão vadio."

Noel resolveu respondê-lo no ato, com Rapaz Folgado. "Tira do pescoço o lenço branco, compra sapato e gravata, joga fora esta navalha que te atrapalha." Wilson gostou e alimentou a fogueira com Mocinho da Vila, classificando Noel como um playboy do morro, que nada sabia de malandragem. Noel se calou por um tempo até voltar, aparentemente sem mais provocações, com o samba dos sambas, Feitiço da Vila. Sem mais provocações até a última frase, que pode ter atingido Baptista no peito. "Não há um cadeado no portão, porque na Vila não há ladrão."

Wilson retrucou, retomando a briga: "É conversa fiada dizerem que o samba na Vila tem feitiço / Eu fui ver para crer, e não tem nada disso." E aí, mexeu com a Vila, mexeu com a mãe de Noel. Como um bruxo, Noel Rosa lançou sobre Wilson Palpite Infeliz, uma canção com força para ficar na história e tirar seu oponente dela. "Quem é você, que não sabe o que diz / Meu Deus do céu, que palpite infeliz." Ao ver o sucesso de Noel, Wilson Baptista foi para o tudo ou nada, mirando o queixo - ou a falta de queixo - do adversário. "Boa impressão nunca se tem, quando se encontra um certo alguém / Que até parece o Frankenstein." Frankenstein da Vila pegou mal e foi amaldiçoada no mundo do samba.

Wilson Baptista e Noel Rosa ainda dariam as mãos assinando juntos Deixa de Ser Convencida, mas o estrago estava feito. Ao mesmo tempo em que colocava Wilson na mesma altura de Noel, a polêmica dos anos 30 estigmatizaria o sambista de Campos como o vilão. Sobretudo depois da morte de Noel, Wilson Baptista só seria procurado para falar sobre a briga. Um feitiço que só o beijo de um bom biógrafo poderia quebrar.

WILSON BAPTISTA - O SAMBA FOI SUA GLÓRIA

Autor: Rodrigo Alzuguir

Editora: Casa da Palavra (583 págs., R$ 58) 

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